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Otacílio de Assunção, editor de Tex na época da Vecchi (e famoso graças à publicação da revista Mad), fez algumas importantes revelações sobre o ranger na Lista de Discussão da Gibihouse, que trata sobre quadrinhos em geral. Pela importância das revelações, pedimos autorização ao Ota para publicar a matéria no Portal e ele, gentilmente, concordou com o pedido, dando ainda mais informações. Em nome de toda a nação bonelliana, dizemos: "Obrigado, Ota!".

"Se não der lucro, babau!"

"As publicações do Bonelli tem um público certo, algumas tem um público menor que as outras, mas o publico é fiel. Muitas vezes, entretanto, os resultados iniciais não são o que os editores esperam. Se a Editora não tem lastro para agüentar algum tempo até comecar a dar lucro, babau.

O Lotario Vecchi comprou o Tex mais ou menos na mesma época que o Aizen pegou o Storia del West. Na época ficaram meio putos na Ebal, pois significava a entrada da Vecchi de novo no mercado de quadrinhos. A Vecchi (que publicara antes Xuxá, Pequeno Xerife, Pecos Bill e aquelas revistas de amor) saíra do mercado de quadrinhos na década de 60 devido a um "acordo de cavalheiros" feitos com a Abril, se não me engano. O acordo era: "voces não publicam fotonovelas, nós não publicamos quadrinhos". O acordo foi descumprido, a Abril começou a lançar fotonovelas.

Eles compraram o Tex, lançaram com aquele arco e flecha no primeiro número (ver TEX-001) e foi um sucesso de vendas (por causa do brinde). No número seguinte não teve brinde e as vendas foram baixíssimas. Como eu disse, eles pensaram seriamente em cancelar a revista, mas viram que as vendas aumentavam prograssivamente e insistiram, e acabou se tornando a revista mais lucrativa da Editora.

Critérios da Editora Vecchi

Quando eu fui trabalhar na Vecchi para comandar a editoria de quadrinhos, não cuidava da revista, que era produzida pela editoria de fotonovelas. Eu cuidava só das novas revistas (Eureka, Mad, Gasparzinho etc). Foi só depois que passaram a revista Tex para a minha mão.

O critéiro usado pela Vecchi nos primeiros Tex era publicar primeiro as histórias completas, digo, que cabiam em uma só edição. Essa é a razão de a ordem de publicação ter sido tão maluca. Quando as histórias mais curtas acabaram, passaram a publicar as grandes que se dividiam em 2 ou 3 números.

Algum tempo depois, a revista Tex passou para a editoria de quadrinhos da qual eu era responsável. Percebi que as histórias maiores eram as melhores - e fundamentais - então comecei a publicar as coisas numa ordem meio lógica para apresentar os personagens recorrentes (Mefisto, Bruxo Mouro, etc.) e acertar a cronologia.

As vendas aumentavam e eram lançadas também no meio e fim de ano aquelas edições gigantes, as especiais. O critério para essas, depois de algum tempo, era publicar o material bem antigo (que ja tinha saido na Revista Júnior) mas era desconhecido do novo público.

Ota em auto retratoPodem notar que as vezes aparecia um personagem na série normal, digo, nas edições comuns, e logo a seguir a origem aparecia na especial. O letrista ficava maluco: "- Mas como, esses personagens morreram todos na última história, como agora aparecem todos de novo?"

Hehehehe... Mas acho que o público gostou, pois durante a minha gestão Tex multiplicou as vendas. Por volta de 1980 Tex Edição Normal estava tirando 150 mil exemplares e a reedição 100 mil. Sendo que em algum tempo saia cada uma dessas a 15 dias, isto é, ao todo eram uns 500 mil exemplares de Tex vendidos por mês. A diferença entre o Tex Normal e o Tex Reedição correspondia à defasagem dos leitores que não tinham comprado na primeira série, e completavam suas coleções.

Infelizmente, a maioria da editoras não pensa a longo prazo. É claro que algumas revistas são um fracasso assim que saem, mas outras, se houvesse persistência, emplacariam. Lembro que um poço de petróleo leva uns 15 anos pra dar lucro. Se alguém monta uma loja, tem que esperar algum tempo para ela começar a ser rentável. Entretanto, no mercado editorial, todos querem o lucro fácil. 

Infelizmente, são poucos os donos de editoras que gostam de quadrinhos. Tex na Editora Globo dava lucro, porém estava num patamar abaixo do que eles queriam para cada revista, então algum executivo resolveu cortá-la. A Mythos herdou a revista de mão beijada.

"Tex: ainda uma das revistas mais vendidas"

No caso de Tex, o mercado residual da Vecchi foi para a Rio Gráfica (depois Globo) e a Mythos herdou depois. Note-se que nao houve muita defasagem entre uma editora e outra, portanto o público era o mesmo. Claro que as vendas não são tão grandes quanto há 20 anos, mas como todo o mercado caiu, Tex continua sendo uma das revistas mais vendidas.

A trajetória de Ken Parker é mais complicada. Quando a Vecchi parou, restavam apenas umas 12 edições, já que a publicação brasileira estava praticamente encostada na italiana. A Best lançou do número que parou. Não sei os detalhes, mas ao que me lembro, saíram apenas 2 números. Não sei se a Best pertencia ao Franco ou se ele era apenas empregado, mas alguém que decidia as coisas lá não ficou 
satisfeito com os resultados e cortou.

O que acontece agora é que eles lançam a revista para um mercado selecionado, algo tipo aquele pessoal que ja comprava antecipado o Príncipe Valente da Ebal. De modo geral, as revistas do Bonelli, se forem bem lançadas, vendem bem. Embora algumas vendam menos, tendo uma venda certa, seja lá 2 mil, 5 mil ou 10 mil exemplares, dá pra ajustar a tiragem.

Não são como as revistas de fofocas, que dependem de ter alguma capa com alguém famoso para vender mais - os leitores são constantes e tendem a aumentar. O problema maior é a distribuição. Repito: é preciso as pessoas envolvidas gostarem da coisa - não basta ter só capital, mas tambem amor. O problema é que o mercado editorial e de distribuição está na mão de pessoas que só pensam em números. 

Se for uma revista merda chamada MERDA que estiver vendendo 200 mil exemplares, todos ficam todos contentes. Se for uma obra de arte que não rende lucro imediato, não se interessam".

Otacílio de Assunção

Em tempo: Esta reflexão chegou até nós através da Lista de Discussão Gibihouse, que trata sobre quadrinhos em geral e foi publicada nesta seção com autorização do próprio Ota.

Data de publicação:
Publicado em 15/02/2002 

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