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por João Miguel Lameiras A maioria dos leitores portugueses de BD, quando se fala em BD italiana, associa-a imediatamente a nomes consagrados como Hugo Pratt, Milo Manara, Lorenzo Mattotti, Vitorio Giardino, Sergio Toppi, ou Guido Crepax. Mas a verdade é que o nome mais importante da BD italiana da actualidade, não é nenhum destes autores de prestígio, mas sim um editor, Sergio Bonelli, que construiu um verdadeiro império editorial, cuja verdadeira dimensão ainda é desconhecida em Portugal, onde apenas tem chegado de forma regular a série "Tex", um Western Spaguetti criado por Gianluca Bonelli em 1948. 
O segredo dos "fumetti" (nome dado em Itália à BD) de Bonelli consiste em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores. A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que leva à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco. Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também tem procurado o sucesso internacional, estando presentes também no mercado americano (através da Dark Horse), francês e brasileiro. E é precisamente via Brasil que nos chegam uma série de títulos bem representativos da qualidade e diversidade dos fumetti de Bonelli. Se uma série como Tex sempre conheceu grande sucesso no Brasil (e em Portugal, onde as sobras da edição brasileira eram distribuídas com regularidade), agora a editora Mythos, que substitui a Globo como editora da Bonelli no Brasil, decidiu apostar em outros títulos emblemáticos (e, quanto a mim, superiores) como "Martin Mystere" ou "Dylan Dog". Assim, de uma fornada, chegaram aos quiosques de Portugal, não só o regressado "Tex" mas também o primeiro nº de cinco novas séries: "Mister No", "Mágico Vento", Nick Raider", "Dylan Dog" e "Martin Mystere". Se de "Mister No" não posso falar, pela simples razão de que não o li, os restantes títulos merecem um olhar atento, mesmo do leitor de BD americana e franco-belga. Comecemos por "Mágico Vento" um western sobrenatural, protagonizado por um mestiço que perdeu a memória mas que ganhou dons de vidente, e que tem como grande atractivo o desenho do espanhol José Ortiz. Veterano desenhador, com uma carreira de sucesso construída entre Espanha e os EUA, Ortiz já é um habitué dos westerns da Bonelli desde que em em 1993 ilustrou um Tex anual (ver Diário As Beiras de 11/3/95), espalhando depois o seu talento pelas revistas mensais do popular cowboy. Neste caso, embora sem atingir o primor desse trabalho anterior, Ortiz dá à mesma provas do seu talento gráfico e do seu apurado sentido narrativo, onde brilham o uso dramático do claro/escuro e o grande dinamismo das cenas de acção, planificadas de forma dinâmica. Também "Nick Raider" um policial negro criado por Claudio Nizzi, traz um desenhador pouco habitual nessas andanças, o italiano Ivo Milazzo, que troca temporariamente as planícies selvagens de "Ken Parker" (um excelente western intimista, escrito por Giancarlo Berardi, infelizmente pouco conhecido entre nós) pela cidade de Nova Iorque, sem resultados famosos, pois o traço quase esboçado de Milazzo reflecte um ritmo de trabalho demasiado rápido, mas que não afecta o seu impecável sentido narrativo. Se nas séries anteriores, os desenhadores eram as vedetas, nos casos de "Martin Mystere" e "Dylan Dog", a quota maior do sucesso cabe aos argumentistas Alfredo Castelli e Tiziano Sclavi. Em "Martin Mystere", Castelli demonstra a sua vasta erudição numa história solidamente documentada, que avança uma explicação curiosa para a origem dos símbolos do tarot, enquanto que o traço clássico de Ricci substitui com eficácia Giancarlo Alessandrini, o principal desenhador da série. Por último, temos aquela que é, na minha opinião (e na de milhões de leitores italianos), a melhor série, "Dylan Dog", o detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi, a que voltarei numa próxima ocasião. E, mesmo que a história escolhida para este nº 1, que resolve uma série de pontas soltas, possa ser algo incompreensível para os leitores que descobrem Dylan Dog pela primeira vez, esta é uma série a não perder, sobretudo para quem gosta de histórias de terror imaginativas e bem contadas. Portanto, a partir de agora há que estar atento aos quiosques para não deixar escapar os "fumetti" da editora Bonelli que a Mythos nos traz e que provam que a BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. E numa época de crise como esta, os leitores certamente agradecem. "Martin Mystere" nº 1, de Alfredo Castelli e Angelo Ricci, Mythos Editora, 98 pags, 2,50€ "Mágico Vento" nº 1, de Manfredi e Ortiz, Mythos Editora, 98 pags, 2,50€ "Nick Raider" nº 1, de Claudio Nizzi e Ivo Milazzo, Mythos Editora, 98 pags, 2,50€ "Dilan Dog" nº 1, de Sclavi e Stano, Mythos Editora, 98 pags, 2,50€ Copyright
da reportagem:
© 2003 Diário As Beiras; João Miguel Lameiras
Em tempo:
Reportagem enviada ao Portal TEXBR por José
Carlos Pereira Francisco, de Anadia, Portugal
Data de
publicação:
Publicado em 18/02/2003
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