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As bancas de revistas brasileiras, decantadas tão bem por Caetano Veloso em "Alegria, Alegria", apresentam neste final de fevereiro um momento mágico para os amantes dos quadrinhos.
A saga de Tex Willer chega ao honroso nº 400. Quatrocentas edições percorridas em mais de 52 mil páginas. Uma história de amor e devoção aos quadrinhos iniciada, neste formato, em 1971 pela extinta Editora Vecchi. Partindo desta palavra italiana, a "velha" paixão, o "Velho Oeste", as velhas trilhas inóspitas, nos renovam a cada edição de Tex. Sem a profundidade e delicadeza psicológica de um Ken Parker, nem o caráter "blazé melancólico" e, ás vezes,
impressionista de um Blueberry, Tex encanta pela simplicidade e evolução dos roteiros através dos tempos. Com um time respeitável de desenhistas, com destaque para G.Ticci, Nicoló, Ortiz e o inesquecível Aurelio
Galleppini, as paisagens cinematográficas da região mais fascinante dos Estados Unidos ganham tratamento inigualável para o surgimento dos quatro cavaleiros inseparáveis, de traços duros e personalidades marcantes. Jack Tigre, o índio Navajo de poucas palavras e história marcada pela tragédia, nos remete à figura do herói
que traz marcas do passado insepultas e raça preconceituada pela sociedade da época (e, por que não dizer, ainda dos tempos de hoje). Jack, em diversos episódios, é o coadjuvante que marca,
aquele com quem os leitores se identificam na frase "quem eu gostaria de 'ser"'. Jack, quando bem acionado, rouba a cena. Episódios como "Tempo de Matar" ficam para sempre na memória. Ainda mais com obras de arte mágica em luz e sombra assinadas por Giovanni Ticci. Kit Willer, o filho de Tex com a índia
Lilyth, é o personagem mais fraco da trama. Surgiu naquele tempo infantilizado dos quadrinhos onde personagens juvenis ganharam as pranchetas. Quem não se lembra do Pequeno Ranger, as aventuras de Rin Tin Tin e outros já não tão mais lembrados? Falta ao filho de Willer um norteador. Uma diretriz mais dialética e...conflitante. Kit, em episódios mais recentes, foi "valorizado" em argumentos dos roteiristas Medda, Nizzi e
Boselli. Talvez seja o grande "ás na manga" para futuras tramas. Ou o alvo mais óbvio para a crítica.
O "velho danado" Kit Carson é a "muleta" (no bom sentido, não esperneie, Kit!) mais fascinante na história do western em quadrinhos.
O personagem vai da rabugice ao ótimo humor, da sedução à saraivada de balas com maestria na pena de Claudio Nizzi. O pard inseparável de Tex quebra o roteiro com elegância e deve ser mais burilado nos próximos anos. Sou contra a idéia absurda da "morte" de Carson como li outro dia em uma sugestão de leitores italianos. As "mortes" da Marvel e DC Comics não podem servir de parâmetro. Morrer, por lá, é uma confusão dos diabos! Três letras para um herói. Dos outros até que é fácil falar. Quando chega no Tex, a mente trava. Sem exageros, é como descrever pai, filho, irmão de fé...o melhor amigo. Sim, porque o velho Tex (escolha do "meio" Gary Cooper de Galep ao do traço definitivo de Ticci e Villa) está em nossos corações e nossas mentes como um velho amigo. Aquele
com quem sempre poderemos contar. Nas horas difíceis, nas horas lúdicas, de se aproximar um pouco do nosso filho e dizer: "olha o que seu pai lia quando tinha a
sua idade". Águia da Noite cavalga em nosso alter ego. Por viagens solitárias a um mundo fantástico, desafiador, convidativo e fascinante. Por outra vertente, não menos importante, Tex é mais do que um marco na história dos quadrinhos
mundiais. É um personagem que sobreviveu às idas e vindas dos modismos triviais, da sobrevida que deram ao western no cinema e, principalmente, à queda de temperatura da febre dos quadrinhos. É, sem medo de errar, um fenômeno editorial
difícil de ser comparado. O bom e velho Willer faz parte da minha vida e de tantos e tantos. É o eterno companheiro para, em qualquer momento, mandar o
estresse passear, recostar em uma rede, abrir um novo número e se deleitar com mais uma aventura. Vinte e cinco anos depois de ter comprado, em uma banquinha de Amaralina, o episódio
"Cheyennes" (Ed. Vecchi) e, a partir dele, adquirir todos os números da coleção, os olhos ficam marejados com o número 400 estampado na bela capa de "Homens em Fuga". Voltando à música do mano Caetano citada no início deste artigo,
há um trecho que diz: "Eu quero seguir vivendo..." e quero que Tex também. Alegria, Alegria,
apaixonados dos quadrinhos. O sol nas bancas de revistas tem a marca de Tex. (*)
Antonio Pastori (Salvador, BA) é escritor e jornalista. Ficha
Técnica:
Tex 400
Homens em Fuga
Roteiro: Cláudio Nizzi
Desenhos: G. Ticci
Tradução: Julio Schneider
Formato 15 x 17
Edição Colorida
Acompanha livreto de 48 páginas com todas as capas da edição brasileira
Preço: R$ 5,90
Data
de publicação:
Publicado em 27/02/2003
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