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Fernanda Martins Era sábado à tarde. Na ensolarada São Luís, ilha do amor, a Rua dos Manacás se esvaziava e o barulho provocado pelas crianças que brincavam era substituído pelo silêncio sonolento das 16 horas.
Era sábado à tarde. Sentados em frente à televisão, pipoca na mão, esperávamos a chamada para o próximo programa da TV Globo com ansiedade e impaciência. Então, finalmente, após uma série de intermináveis reclames, o tão esperado momento chegava: Sessão Western. Desfilavam então, diante dos nossos extasiados olhos infantis, mocinhos, bandidos, índios e, encarnados neles, das telas nos sorriam John Wayne, Allan Lad, Randolph Scott, Roy Rogers e tantos e tantos outros. Acompanhávamos com angústia as desventuras dos nossos heróis, fossem eles peles-vermelhas ou caubóis, até o alívio do final redentor em que, sem deixar jamais o chapéu lhe cair da cabeça, o mocinho liquidava o último tirano ou se entregava nos braços da amada. Após duas longas - mas que para nós pareciam tão curtas - horas, embriagados ainda pelo filme que acabara, voltávamos a povoar a rua, desta vez armados de chapéus e revólveres de espoleta ou arco e flecha, e revivíamos à nossa maneira as aventuras de nossos sonhos. Há exatos 100 anos, em 1903, o primeiro filme de western veio às telas do então incipiente cinema: O Grande Assalto do Trem (The Great Train Robbery), um filme em preto e branco, de 12 minutos de duração, produzido por Thomas Alva Edison - ele mesmo, o criador da lâmpada - e dirigido por Edwin S. Porter, tendo como astros Justin D. Barnes e Walter Cameron. E como esse evento não poderia passar em branco para os fãs do gênero, o Museu do Filme (www.filmmuseum.nl) em Amsterdam, na Holanda, fez uma brilhante homenagem aos filmes de Western. De 8 de maio a 2 de julho, a Mostra 100 Anos de Western exibiu os clássicos, os musicais, os filmes mudos, os infantis, enfim, um caleidoscópio maravilhoso dedicado ao velho oeste. Dividida em temas, a exibição mostrou a cada dia, durante esses dois meses, além das grandes obras, também documentários inéditos e uma vasta coletânea de livros afins. Com o tema documentário, "Go West, Young Man" é um filme holandês inédito, em que Peter Delpeut e Mart Dominicus vão aos Estados Unidos à procura do que sobrou do Velho Oeste. A atração principal desse documentário, a meu ver, foi a filmagem do Monument Valley, a formação rochosa que serviu de pano de fundo para muitos westerns de John Ford. O tema Westerns da Columbia dos Anos 50 trouxe, entre outros, "3:10 to Yuma" (1957), com Glenn Ford e Felicia Farr e "Decision at Sundown" (1957).
Requiem ao Oeste Selvagem mostra "Pat Garret e Billy the Kid", "The Wild Bunch" e "Unforgiven". O tema Western sem Fronteiras exibiu filmes que, sem serem diretamente relacionados ao velho oeste, têm, no seu enredo a temática do oeste como base para suas estórias. O herói solitário busca a 'fronteira final' e a eterna luta do bem contra o mal são a base para filmes de ficção científica, como "Capricorn One", de aventura, como "El Mariachi" ou de samurais, como "Yojimbo", tendo este último inclusive servido de inspiração para "A Fistful of Dollars" (Por um Punhado de Dólares - 1964). Na série, Os Cowboys Cantores pudemos recordar Roy Rogers. E, como não podia deixar de ser, o tema Clássicos nos brinda com "High Noon",
no Brasil "Matar ou Morrer" (1952), de Fred Zinnemann, com Gary
Cooper (que ganhou o Oscar de melhor ator) e Grace Kelly; "Shane" (1952), com Alan Lad; "Rio Bravo" (1959); "Stagecoach" (No Tempo das Diligências - 1939), de John Ford, trazendo um John Wayne bem novinho no elenco; "Butch Cassidy e Sundance Kid", com Paul Newman e Robert Redford, retratando a saga de uma das duplas de bandidos mais famosas da história, também fonte de inspiração para Bonelli criar a aventura "Horda Selvagem", em que Tex e Kit Carson vão até a Bolívia e presenciam o fim dramático desses dois bandidos. Mas nem só para os adultos a Mostra de Western foi montada. As crianças também puderam se divertir à beça com os desenhos infantis do caubói Lucky Luke. E uma das atrações mais espetaculares foi com certeza a exibição dos filmes mudos acompanhados de artistas holandeses ao piano, fazendo um revival à era inicial do cinema. Infelizmente, à exceção de "Once Upon a Time in the West" (C'era una volta il west - 1968), de Sérgio Leone, quase nenhum outro "spaghetti" italiano foi exibido na Mostra, e isso inclui o único filme feito sobre Tex, "Tex e o Senhor do Abismo", com Giulianno Gemma. Mas se houve alguma outra menção sobre a obra de Bonelli não fiquei sabendo. Parabéns, Holanda, por este presente maravilhoso.
Em tempo:
Artigo enviada ao Portal TEXBR por Fernanda Martins, de Leusden, Holanda.
Data de
publicação:
Publicado em 06/06/2003
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