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Desde garoto tive por hobby ler e colecionar histórias em quadrinhos, o que por muitos da época não era considerada
uma boa leitura, mas mantive sempre firme este hábito alheio à opiniões discordantes.
Em meio aos muitos Pato Donalds, Mônicas e Homem-Aranhas da infância, conhecí Tex Willer, o ranger. Nascia alí uma amizade que ao longo das aventuras foi cada vez mais se fortalecendo.
Afirmo categoricamente que aqueles quadrinhos muito contribuíram para minha atual estrutura psicológica e cultural. Devo as benditas hqs parte desta formação interna que, segundo as avaliações de padrão que realizei ao passar dos anos, é
perfeitamente normal e, afortunadamente sem qualquer distúrbio esquisofrênico oculto.
Bem ao contrário do que suporia algum acadêmico considerando também uma persistente mania de colecionar estes gibís.
Hoje, trinta anos mais tarde, muita coisa mudou! Os gibis até foram elevados a categoria de nona arte! Aliás, o que sempre foram.
Contudo, percebo às vezes um desdém dissimulado quando tenho em mãos uma
hq (quase sempre Tex). Talvez me tomem por um indivíduo de atrasada infância, ou muito
ocioso, ou até mesmo pessoa violenta pronta a brandar armas na primeira oportunidade agindo igual ao personagem do livro que carrego.
Engraçado mesmo é observar
o jeito e trejeito das pessoas quando saio com meu filho de uma banca de revistas com algum novo exemplar de
Tex nas mãos. Até parece que ouço eles dizerem: "pobre menino, que exemplo o pai dá
a ele."
Porém eu me
resigno, porque quem dera se meu filho assimilasse metade dos atributos e
virtudes de Tex (moldados aos nossos dias)... seguramente parte de minha cota de contribuição com a humanidade já estaria regiamente
paga.
Tenho me
mantido firme frente às opiniões discordantes, porém, há no mínimo uma opinião da qual não posso ignorar: a da esposa!
Na verdade ela sempre apoiou, sempre achou normal este hábito de distração, até por que muito antes de a conhecer eu já colecionava Tex.
Acontece que, com o dia-a-dia, minha adorada companheira muitas vezes dividiu meu tempo com um estranho indivíduo de papel. E embora fossem amores diferentes, estava formado o
"triângulo amoroso" como muito bem citou um amigo texiano
outro dia.
Tenho
enfrentado perguntas como: "- Já não bastam estas tantas revistas nacionais,
agora também as italianas?"; Ou: "- Pôxa, você tá montando uma estante inteirinha só para o
Tex?"
Esta convivência a três flutua entre o racional e o irracional. Irracional o ciúme da esposa quando permaneço horas a me divertir com os amigos de ficção. Racional sua bronca com certas despesas, além do orçamento, a qualquer momento que
me deparo com Tex... e isso em qualquer lugar... Acrescente-se aí uma ou outra viagem
"só prá encontrar outro fanático colecionador" que também deve ter uma esposa
queixosa.
É... Em vários momentos
a opinião feminina deve(ria) ser melhor considerada! Mas estamos nos divertindo muito por causa disso. É que, nos últimos anos, convivendo entre virtual e pessoal com uma turma expert em Tex Willer, percebemos
analisando seus variados depoimentos que também eles enfrentam dilemas com suas
companheiras. Estou me referindo, é claro, aos texianos do Portal TEXBR e os do Fórum
TEXBR.
Assim,
refletindo sobre a paixão à luz da razão, chego à conclusão de que minha vida com Tex mostrou-me
o devido valor das palavras: enconTrex, ciúmes-de-papel, despesas-duvidosas, estanTex,
presenTex, preconceito quanto a hqs, dicionário de italiano, infância-hqs, cultura-hqs...
Descobri que estes hábitos que eu tenho com Tex, que talvez possam ser
considerados um pouco exagerados
para uma pessoa comum, são, na verdade, qualidades de um bom texiano, "feitos de bom
barro", como diria nosso herói.
Em
tempo:
Depoimento escrito
por Nei Souza
Teixeira,
Macatuba, SP, Brasil
Data
de publicação:
Publicado em 19/12/2004
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