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Portal
TEXBR - Wilson,
iniciando nosso bate-papo, nós gostaríamos que você nos contasse como se
deu seu primeiro contato com as HQs, que quadrinhos você lia na infância e
que autores apreciava.
Wilson Vieira - Bem, inicialmente, gostaria de lhe agradecer, assim
como ao Gervásio, ao Nilson, ao Alex e a todos do staff do Portal TEXBR, pelo
"espaço cedido". É um prazer bater aquele "papo" com você,
amigo. Agora, respondendo à sua pergunta: é interessante, pois quase não
tenho recordações daquela época, não... alguns personagens que ainda
recordo são: Nick Holmes (de Alex Raymond) e o seu mordomo, eram incríveis
histórias policiais; Kid Colt (de Jack Keller) era um exímio pistoleiro; O
Fantasma (de Lee Falk), que todos conhecemos; também Tarzan (de Edgar
Rice Burroughs); mas o que me marcou mesmo foi o Cavaleiro Negro (Black Rider,
de Sid Shores, e a versão brasileira, de Primaggio Mantovi e Walmir Amaral),
que, com a sua dupla identidade, me fascinava - o pacato doutor Robledo e o
envolvente Cavaleiro Negro, com sua máscara e seus revólveres reluzentes.
Inesquecíveis. Recordo-me, também, do meu pai desenhando, daquele jeito
"quadriculado", ou seja, você coloca o que quer desenhar, a imagem,
em pequenos quadrados e faz outra grade e começa a ampliar como quiser o
primeiro desenho. Meu pai era muito hábil nessa técnica. Aquilo também me
estimulou a começar a estudar as maneiras de desenhar, a fazer cursos. Fiz um
muito bom de Desenho Artístico e Publicitário, aqui no bairro onde nasci, o
Ipiranga.
Portal
TEXBR - Diga-nos
como se deu sua viagem para a Itália em 1973. Você era um jovem estudante de
vinte poucos anos... Como foi sair do país para estudar no exterior?
Wilson Vieira - É verdade, naquela época eu fazia o vestibular
para História e trabalhava num banco, como caixa. Tinha uma certa quantia
economizada e resolvi ir para a Itália, pensando que, com o seu passado,
seria o local ideal para concluir os meus estudos. Não pensei muito não,
comprei uma passagem para Gênova de navio e lá fui eu, com a cara e coragem,
pois mal sabia ainda a língua. Aliás o pouco que sabia, aprendi comprando
uma revista italiana que era vendida semanalmente aqui (São Paulo) em certas
bancas importadoras, cujo título era "Noi i Givovani", que falava
sobre os cantores (as) italianos dos anos 70. Fui obrigado mesmo a falar mais
durante a viagem, que durou 11 dias de Santos a Gênova, por pura questão de
sobrevivência. Quando lá cheguei, tive o primeiro impacto: pensei que tinha
descido em um porto errado, pois para mim a língua que falavam era o francês.
Eu estava errado, era simplesmente o dialeto genovês. Era pleno inverno
Europeu, imagine só, um brasileiro que só via neve pela televisão foi
encarar aquele tempo. Mas finalmente deu tudo certo. Começava ali a minha
saga italiana.
Portal
TEXBR - Por
que a Itália? Você já conhecia o país? Tinha familiaridade com a língua?
Wilson Vieira - Escolhi
a Itália, obviamente, por saber de sua história, estava mesmo procurando um
país com o qual me identificasse para continuar os meus estudos. Não
conhecia a língua, não, apesar de ser neto de italiano. Nunca antes havia me
interessado pela Itália, imagine, mas com muita objetividade e tenacidade,
aprendi tudo muito rápido. Aliás onde aprendi mesmo a entender e a falar a língua
italiana foi vendo todos os spaghetti-westerns que assistia quando era possível,
principalmente aos domingos. Assistia de 3 a 4 filmes, e isso foi muito
importante para desenvolver o meu sentido de assimilação fonética.
Portal
TEXBR - Em
que momento você percebeu que deveria trocar o curso de arqueologia, que
daria seguimento aos seus estudos, pelo de artes plásticas, no Lorenzo de
Medici? Toda aquela atmosfera artística foi a responsável pela mudança?
Wilson Vieira - Bem, chegando lá, primeiramente tive que arranjar
algum emprego e consegui vários, antes de me tornar um desenhista
profissional: garagista, ajudante de cozinha e locutor de rádio. O motivo
principal mesmo [para não seguir na carreira de historiador] foi a burocracia
que encontrava quanto a minha documentação: era carimbo daqui, assinatura de
lá, muitas despesas extras. Já trabalhava como garagista quando conheci um
vendedor de aspirador de pó e fiz amizade com ele (que me via sempre
rabiscando num caderno de desenho). Ele se ofereceu para apresentar-me à
Florenzo Ivaldi, editor da revista Sgt. Kirk. Porém, antes desse encontro,
redesenhei um gibi inteiro de Nick Holmes (originalmente chamado de Rip
Kirby), para mostrar que sabia desenhar (coitado de mim, os desenhos eram horríveis,
porém, foram eles que me abriram as portas para os fumetti). Nesse ínterim,
soube do Instituto d'Arte Lorenzo de Medici, aliás ele estava abrindo suas
portas. Fui até Florença obter maiores informações e tudo foi resolvido
sem burocracias, o curso de Artes Plásticas deles era bem "elástico",
pois estudavam lá muitos estrangeiros. Ou seja, você até podia faltar
"X" dias ao mês que as aulas eram repostas, ou podia complementar
com aulas extras aos sábados, domingos e feriados, e havia rápido acesso por
trem e outras "aberturas" que influíram bastante, pois,
logicamente, eu também devia trabalhar para ajudar com os gastos. Mas é
claro que a atmosfera artística da Itália é simplesmente sensacional, a de
Florença, então, ah... é imbatível.
Portal
TEXBR - Nós
podemos imaginar que estar cercado por grandes museus, galerias e escolas de
artes seja algo relevante... A Itália - junto com a França - era (e ainda é)
o grande centro artístico da Europa.
Wilson Vieira - Exatamente, Marcelo. Em minha modesta opinião, a
Itália ainda continua em primeiro lugar quanto ao seu poderio artístico. Eu
digo sempre e aconselho: quem quiser e puder (hoje em dia, é muito mais comum
poder viajar - imagine, estamos relatando fatos dos anos 70), que vá à
Europa e, se puder, passe alguns dias pela Itália. Como vivência cultural é
imperdível e marcará a sua vida para sempre. Resumindo, lá você
literalmente "respira Cultura".
Portal
TEXBR - Parece
que você começou a atuar como desenhista profissional ao mesmo tempo em que
estudava...
Wilson Vieira - Exatamente. Após preparar os desenhos da revista
Nick Holmes, voltei a procurar Florenzo Ivaldi e ele, diante dos desenhos
(imagine, lembro-me até hoje, sua casa estava repleta com os originais de
Hugo Pratt!), disse-me para procurar ali mesmo em Gênova o Staff di If e, em
minha presença, telefonou para Gianni Bono. Fui diretamente para o estúdio,
me apresentei ao Gianni e ele disse que eu ainda estava muito
"verde" para fazer parte oficialmente do staff. Me comprometi, então,
a ficar fazendo provas, treinando até quando ele me diria que estava em bom nível
para ingressar no Staff. Aí coincidiu com meus estudos, pois fiquei um longo
tempo treinando (importante salientar: sem receber nada; quem faria isso
atualmente?), desenhando, por exemplo, tudo o que aparecia pela frente (dormia
com blocos de desenhos). Observava, também, os desenhistas que já
trabalhavam para o Staff di If, como o meu amigo Salvatore Deidda, que acabou
desenhando o personagem Martin Mystère antes de falecer. Ia aperfeiçoando
cada dia mais o meu traço. Portanto não tinha ainda um compromisso assim tão
sério como desenhista e sobrava tempo para, também, estudar, o que me ajudou
de maneira determinante em minha performance como desenhista profissional, o
qual me tornaria mais tarde. Além do mais, os desenhos nunca atrapalharam a
minha estadia na Itália, pois os trabalhos (roteiros) eram entregues e
marcava-se uma data para desenhá-los; você, dentro desse prazo, ficava
livre para outras atividades pessoais, sociais ou educacionais, todos do Staff
di If seguiam essa rotina. Portanto o convívio naquele local sempre foi
absolutamente produtivo, inesquecível e altamente educacional.
Portal
TEXBR - Então
a carreira de historiador não teve seguimento... De imediato você se engajou
na carreira de artista das histórias em quadrinhos.
Wilson Vieira - Sim, Marcelo, parou por ali mesmo. Obviamente, eu
era um desenhista imaturo ainda, mas tinha o principal: gostava de desenhar e
muito. Penso que se você tiver um objetivo na cabeça, mesmo sendo algo
impossível, se insistir, conseguirá um dia atingir sua meta. Mas atenção,
tem que ter muita, mas muita vontade mesmo e horas, dias, meses e anos de
insistência e de treino, principalmente se for algo relativo às artes. Não
será com alguns esboços que você irá desenhar aqui no Brasil ou lá fora,
seja onde for. É isso que os jovens aspirantes a Artistas devem saber:
melhore o seu traço ou a sua escrita dia após dia, esforce-se, treine mesmo
à exaustão, só assim você terá chances reais de "aparecer"
nesse meio tão sonhado. Sabe, era até gozado... Quando eu ia trabalhar,
sempre encontrava dois ou três desenhistas diariamente pelo caminho, ou seja,
a concorrência nos anos 70, para desenhista e roteiristas, era intensa e
somente sobreviviam aqueles que perseveravam; muitos, muitos mesmo, e eu
conheci vários deles, desistiram pelo caminho.
Portal
TEXBR - Voltemos
ao Studio Staff di If: lembra quantos profissionais trabalhavam lá, como era
o ambiente de trabalho e a rotina?
Wilson Vieira - Mais de 40. Porém, no estúdio mesmo, ficávamos
em 10. A maioria gostava de trabalhar em casa. Eu gostava de desenhar no estúdio,
pois lá tinha uma biblioteca ótima que nos servia com suas referências,
para os roteiros nos quais estávamos trabalhando. O ambiente era sensacional,
trocávamos idéias e éramos críticos ferrenhos uns dos outros, porém
sempre no intuito de melhorarmos a cada dia e representar bem o estúdio de Gênova,
do qual fazíamos parte. Era um ambiente muito descontraído, como se fôssemos
uma grande família, obviamente cada um com a sua personalidade. Sabíamos
controlar bem a nossa convivência. Quanto à rotina, era quase sempre a
mesma: Gianni Bono passava mais tempo em Milão que em Gênova e quando ele
vinha, nos trazia os roteiros que eram distribuídos para os desenhistas, ou
eram passados os argumentos para os roteiristas. Sempre ele nos dava um prazo
no início de cada trabalho e pronto, não importava se você trabalhasse
todos os dias ou em alguns, durante o prazo estipulado, o que interessava era
entregar a sua tarefa pronta na data da entrega e éramos profissionais o
bastante para cumprir os prazos, aliás éramos imbatíveis nesse item. Tudo
começava com a leitura do roteiro, pesquisas em livros (textos ou imagens) e
desenhar ou escrever, dependendo do profissional. Parece bastante simples, porém
tínhamos uma rigidez nessa programação e não era nada imposto, não, era
muito natural para nós e sempre funcionava como um relógio suíço.
Entrevista
exclusiva com Wilson Vieira na íntegra:
Parte 1 - Parte 2
- Parte 3
Em tempo:
Entrevista realizada
por Marcelo Tomazi e editorada por
Alex
Doeppre.
Saiba
mais:
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de
Wilson Vieira
e conheça outros trabalhos do autor Publicado
em 25/03/07
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