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               Wilson Vieira:               entrevista exclusiva (2ª Parte)


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Il Piccolo RangerPortal TEXBR - Esse estúdio produzia HQs para diversas editoras, é isso?
Wilson Vieira - Exatamente, Marcelo. Veja como uma coisa leva à outra: por sermos conhecidos quanto a prazos, havia certos períodos do ano que tínhamos filas de editoras esperando que seus trabalhos fossem executado por nós. No norte da Itália, o Staff di If, era "o" estúdio e sempre foi, até a sua extinção, o maior produtor de Quadrinhos. tanto é que, como já lhe disse, muitos artistas ainda trabalham para o Bonelli, ou já trabalharam. Basta procurar na web e irá verificar que muitos deles passaram pelo Staff di If. Seja como desenhista, ilustrador ou roteirista. Até hoje, o Staff di If (e olhe que já se passaram mais de 35 anos) ainda é lembrado em qualquer local onde se respira quadrinhos na Itália. Penso que só com muito profissionalismo um estúdio consegue se manter no tempo, não é mesmo? Sinto-me até hoje muito orgulhoso de ter feito parte de um grupo de amigos e profissionais no qual tive a oportunidade de conhecer tudo sobre a Imagem Desenhada ou Escrita. Infelizmente, durante essa longa caminhada, muitos deles já faleceram, mas eu me recordo deles e recordarei para sempre, como se estivesse ali e agora.

Portal TEXBR - E como um estúdio tão importante como esse, que até os dias de hoje tem suas marcas reconhecidas, foi fechado? Algum fator relevante, seja financeiro ou pessoal? Depois de tudo o que você nos disse, parece lamentável que essa "empresa dos quadrinhos" não exista nos dias de hoje...
Wilson Vieira - Não sei o motivo, não, mas penso que Gianni, para abrir seus horizontes profissionais, tenha preferido Milão como sua sede central, pois lá estão as grandes editoras Italianas. É lamentável, sim, mas como ele, hoje, existem centenas de estúdios por lá, essa tradição de estúdios não morrerá nunca na Europa.

Portal TEXBR - Então o Staff di If transferiu-se de Gênova para Milão e, algum tempo depois, foi fechado? Foi a concorrência, a crise no mercado dos quadrinhos?
Wilson Vieira - Penso que tenha sido por pura estratégia de Gianni Bono mesmo, senão veja: enquanto eu lá permaneci, o Gianni vinha a Gênova de 15 em 15 dias, pois o "Centro" dos Quadrinhos na Itália, como todos sabem, fica em Milão, lá estão sediadas as grandes editoras, as grandes gráficas. Não penso que tenha sido a concorrência ou a crise no mercado (aliás, penso que a Itália nunca passou por tal crise). Juntamente com o estúdio Staff di If, Gianni também possuía a editora Epierre, com a qual colaborei em algumas revistas e seus personagens de 1978 a 1980, tais como Kiwi, Amok, Pecos Bill, Dusty e Collana Telefumetto. Ela já estava sediada em Milão, daí acho que ele acabou unindo o útil ao agradável. Penso que esse foi o motivo real para o fechamento do Staff di If em Gênova.

Portal TEXBR - Que grandes artistas da Itália e de outros países você conheceu lá?
Wilson Vieira - Puxa, conheci vários deles... Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi, quando ainda não tinham lançado Ken Parker, Hugo Pratt, Victor de la Fuente (espanhol, mas sempre presente na Itália) e alguns desenhistas (amigos meus) que se tornaram bonellianos, como o saudoso Salvatore Deidda, Giovanni Crivello e outros tantos.

Portal TEXBR - Nós sabemos que você tem grandes histórias desse período, excepcionais memórias... Gostaria de dividir algum fato curioso ou engraçado com os internautas do TEXBR?
Wilson Vieira - Ah, tenho uma grande, quem contou foi Gianni Bono para os integrantes do Staff di If: ele disse que o pai do Sergio Bonelli, o Sr. Giovanni Luigi Bonelli, pediu certa vez um café para um assistente qualquer; pois bem, o cafezinho demorou e quando o assistente entrou com a bandeja, ele sacou da gaveta um revólver de cowboy e disparou; apavorado, o assistente jogou a bandeja para cima e saiu correndo em disparada, esparramando o café por toda a sala - todos caíram na risada, pois o tiro era de festim. Se é verdade esse "causo" eu não sei, mas que virou lenda, ah... isso virou.

Portal TEXBR - E então chegamos ao Il Piccolo Ranger, da SBE. Como foi o contato do Studio com a SBE? Quantos números você desenhou?
Wilson Vieira - Bem, o meu primeiro contato com a SBE foi através do Gianni Bono, que um certo dia disse-nos que faríamos Il Piccolo Ranger para o Sergio Bonelli e aí pediu-me que fizesse uma prova com os personagens centrais da série. Passado um tempo, o teste foi aprovado e aí começamos a trabalhar o personagem. Desenhei três episódios, mas como retornei ao Brasil, nunca vi o terceiro episódio publicado, somente os outros dois, os números 206 e 207 (ambos publicados em 1981). Do terceiro eu me lembro e possuo algumas cópias xerox dele; a trama era de um assalto a trem por um bando de mexicanos e um deles eu tinha desenhado com a fisionomia do Charles Bronson, porém sem o bigode; o nome do episódio eu nunca soube... Então, para a SBE, eu desenhei três episódios. 

Portal TEXBR - Nós temos certeza de que o público brasileiro tem grande curiosidade sobre os bastidores da produção de uma revista de quadrinhos... Pode nos dizer como isso funcionava? O Studio recebia o roteiro e depois...?
Wilson Vieira - Nós recebíamos o roteiro (caso não fossem feitos no próprio Staff, já que possuíamos ótimos roteiristas), o texto era passado para o desenhista, no caso, eu mesmo, que lia, fazia em folhas soltas alguns rascunhos, para captar bem a imagem que eu queria, e depois começava a desenhar verdadeiramente. A arte-final era passada para alguém profissional nesse setor (no próprio Staff ou não), eu mesmo arte-finalizei várias histórias: O Senhor do Sol, Qui Commissario Norton, etc. Porém, no caso de Il Piccolo Ranger, arte-finalizei somente as provas (pois o trabalho era muito longo e pesquisado). Os balões e as letras idem, eram feitos no próprio Staff ou não. Quanto às ilustrações para as capas, eram feitas por artistas exclusivos, porém nós todos do Staff fomos obrigados a dominar a tal técnica, que na época era o guache. Eu também fiz algumas capas, como para Tarzan, Davy Crockett, Hondo, L'Uomo Ragno, etc. Na realidade o grande sucesso do estúdio Staff di If era o conjunto de profissionais altamente ecléticos: para nós não existia trabalho difícil ou impossível de se realizar, fazíamos de tudo, do roteiro à publicação, e com alto nível de profissionalismo, seja em preto e branco ou em cores. 

Portal TEXBR - Não podemos deixar de falar isso, apesar do assunto não ter relação com o universo Bonelli: muito antes dos brasileiros fazerem sucesso desenhando super-heróis americanos, antes de Luke Ross e Mike Deodato desenharem o Homem-Aranha, você tinha feito isso! E... na Itália! Como aconteceu esse feito, inédito para um brasileiro? Era uma produção local a partir de roteiros americanos?
Wilson Vieira - Sim, caro Marcelo... Sou o "tio" de todos os demais "sobrinhos" que desenharam super-heróis, após a década de 80. Desenhei "Octopus sfida L'Uomo Ragno" (Octopus desafia o Homem Aranha), que foi publicado em 1981. Foi um trabalho como qualquer outro. Eu fiz antes algumas provas para o Gianni, ele mandou para os Estados Unidos (para o escritório da Marvel Comics), mas o roteiro, com a provação do próprio Stan Lee, foi escrito por Franco Fossati, um dos maiores estudiosos de Quadrinhos da Itália, infelizmente já falecido (1996). Tudo era supervisionado por Stan Lee, que aprovou o produto final, sendo impressa a primeira edição na Espanha. Hoje, na Itália, ele virou objeto "cult" de desejo, sendo vendido em vários leilões especializados em HQs. Ainda bem que tenho um exemplar, não acha? E está sendo valorizado, a cada dia que passa... rs... rs... 

Entrevista exclusiva com Wilson Vieira na íntegra:
Parte 1 - Parte 2 - Parte 3


Em tempo:
Entrevista realizada por Marcelo Tomazi e editorada por Alex Doeppre.  

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Publicado em 25/03/07

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