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Portal TEXBR entrou em contato com Wilde Portella e pediu a ele a
gentileza de responder uma entrevista com questões inteligentemente
formuladas por Jerônimo Fagundes de Souza, e nosso roteirista e
criador de Chet, com muita rapidez no gatilho, provou que sabe atirar
tão rápido quanto o cowboy made in Brazil.
Abaixo
você confere a íntegra desse momento ímpar na história de Chet no
Brasil proporcionado pelo TEXBR, além de ficar sabendo de detalhes
revelados pelo próprio roteirista, do início da série até os dias
atuais e mais: revelações para um futuro próximo!
Jerônimo Souza, TEXBR - Inicialmente, gostaríamos que você falasse sobre a sua carreira até o momento em que você se envolveu com o
Chet: quais os autores que lhe influenciaram, quais as obras que lhe marcaram e quem lhe ensinou a escrever profissionalmente.
Wilde Portella - Minha carreira como escritor de quadrinhos começou na base da brincadeira, quando eu
tinha meus 12 anos. Na época também desenhava, juntamente com Watson. Depois, eu criei e escrevi o roteiro para a revista O
Águia (com desenhos de Watson). Esta revista circulou apenas em Alagoas, pois o editor era de lá. Foi uma produção independente, quase artesanal.
Finalmente, tivemos a chance de publicar nosso primeiro trabalho no suplemento do Diário de Pernambuco (O Júnior), com o personagem Carcará, em 1973. Em seguida vieram diversas outras crias nossa como Ciro Spanto - Um Amor de Camelô, Morcenbix, Tio Paco, e algumas histórias reais, a exemplo do Zumbi dos Palmares. Eu próprio desenhei dois personagens meus: Petrus - o Pequeno Astronauta e Dr. Caspo (quase que o Mozart Couto fez parceria comigo neste herói judeu), que também foram publicados no velho Diário.
Também fiz muitos trabalhos para a Grafipar, de Curitiba, juntamente com meu primo Roberto Portella. Foram muitas histórias de sexo e revistas de cangaceiros abordando o tema nordestino (uma resposta ao Sertão & Pampas). Com Roberto escrevi o texto e roteiro de Grafter, um herói do Oeste meio mal carater. Foi publicado durante três meses nas folhas do Diário de Pernambuco e também em Portugal.
Acredito que fomos os primeiros daquela segunda geração de quadrinhistas a exportar, receber a grana e ter a satisfação de vermos nossa cria ser publicada em revista. Roberto também desenhou a primeira versão de Tio Paco, o agente TP 7, para o suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco. Watson desenhou a segunda versão e colocou o Paco com a minha cara, com boina e tudo.
No final dos anos 70 eu e Watson tivemos a idéia, juntos, de elaborarmos histórias e personagens para enviar para as editoras do Sudeste. Foi uma dezena de "Não!", até que Adolf Aizen nos encomendou uma adaptação do livro Casa Grande e Senzala, do sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre. Eu não topei e mandamos uma resposta que já estávamos em andamento com projeto O Caçador de Esmeraldas. Ele aceitou,
nós enviamos os originais, a EBAL nos pagou, mas estranhamente os originais sumiram da editora. Depois as tentativas continuaram, mas as respostas eram negativas. Até que Watson resolveu que faríamos uma última história, O Começo (passada na época das Entradas e Bandeiras). Caso fosse devolvida, nós colocaríamos O Fim
e... adeus quadrinhos.
A Vecchi publicou e nos pagou e Otacílio D'Assunção Barros levou o mano para o Rio. Eu sempre dizia para Watson que um dia seria o
Bonelli brasileiro. Foi quando surgiu a chance de criar um herói para ser publicado como complemento de
Ken Parker. Fiz uma sinopse na qual o personagem
chamava-se Lássiter, concorrendo com mais dois outros roteiristas do Rio e São Paulo que não sei dizer os nomes. Fui aceito como roteirista e o Lotário veio com aquela história de Tex detrás pra frente (Xet), que virou Chet. Porém, na época, tinha um seriado de TV que um personagem secundário tinha o nome de Chet. Além disso, tem o grande
jazzista Chet Becker. Bom, fiz os capítulo com 20 páginas cada e Chet agradou em cheio. Mas, antes saiu Bill Sanguinário, uma história real, da época da Guerra da Secessão, adaptada por mim e desenhada por Watson.
Jerônimo Souza, TEXBR -
Como foi a criação de Chet, foi uma imposição da Editora Vecchi ou um projeto que vocês apresentaram? Qual a reação inicial dos leitores, que tipo de suporte a empresa lhes deu e que dificuldades vocês enfrentaram?
Wilde Portella - Essa é a melhor parte. A editora não me impôs absolutamente nada, a não ser que as histórias fossem similares ao do Tex. Na parte da criação Watson criou o figurino e o rosto de Chet. Do meu lado acrescentei mais dois personagens Rick (cunhado de Chet) e Blue, capataz da fazenda do herói. Os roteiros fluíram naturalmente, e eu nem fazia sinopse, já mandava o texto pronto. Eu fazia o roteiro na base do cinema, dizendo como queria os ângulos, as paisagens, etc. Watson e os outros desenhistas, como eram bastante criativos, ficavam à vontade para tirar alguma coisa ou acrescentar (no roteiro), sem modificar o texto. Dificuldade não tive nenhuma e ainda por cima tive todo o suporte e apoio do editor de quadrinhos Ota. A imposição era: a revista tinha que vender. Quando saiu o primeiro número Chet se tornou logo um sucesso e tempos depois vendia mais do que o Ken Parker. Então, impus meu estilo, fugi de Tex, e Chet criou uma linha própria. Com isso foi parar na França, México, Portugal e alguns países da América Latina...Mas eu tinha vendido os direitos para a Vecchi, e não via um tostão dessas publicações no Exterior. Até hoje fazem pirataria com o personagem.
Jerônimo Souza, TEXBR - Por que Chet é tão parecido com Tex, que tipo de confusão isso gerou entre os leitores?
Wilde Portella - Se você ler toda a trajetória de Chet ele não é muito parecido com Tex não. Aliás, logo no começo foi diferente, pois teve a mulher grávida estuprada por marginais e, pela primeira vez apareceram seios em revistas de
cowboy daquele estilo. Não gerou confusão entre Tex e Chet, cada herói tinha seu público, a prova é que Chet
chegou a vender cerca de 80 mil exemplares por um bom tempo.
Jerônimo Souza, TEXBR -
Blue é o personagem mais original da série, ainda que semelhante a Kit Carson, principalmente por ser mestiço: trata-se de uma crítica ao racismo dos norte-americanos?
Wilde Portella - Realmente Blue é parecido com Kit Carson, eu reparava um protesto contra o racismo nas histórias do
Bonelli. Resolvi seguir os mesmos passos, só que Blue é mais despojado, inclusive levou Rick para uma velha "casa vermelha" onde o cunhado de Chet tirou a virgindade, tirou o queijo. Kit
Carson não faria isso com o filho de Tex, não é? Quanto ao racismo, fiz uma história Os Filhos de Zâmbi, baseado no Zumbi dos Palmares, mostrando o racismo contra os negros americanos.
Jerônimo Souza, TEXBR - Rick nos surpreende quando foge do seu papel de sidekick e participa das aventuras, inclusive salvando o traseiro de Chet diversas vezes: isso foi intencional?
Wilde Portella - Eu sempre colocava essa situação do Rick, apesar de ser bastante jovem, cerca de 17 ou 18 anos, de livrar Chet de muitas enrascadas. Inclusive fiz algumas histórias nas quais Rick atuava sozinho. O mesmo fiz com Blue, que os leitores achavam muito simpático.
Jerônimo Souza, TEXBR - Chet nunca foi tão mulherengo quanto Blue, mas (volta e meia) arrastava uma garota para a cama: como a censura reagia a estas cenas?
Wilde Portella - Blue era namorador, e Chet, devido ao seu problema de ter perdido a mulher e o filho ao mesmo tempo, não gostava de muito envolvimento com mulheres. Blue era o inverso, não podia ver um rabo-de-saia, e sempre estava levando mulheres para a cama. Por exemplo, na história Feliz Ano Novo (complemento do
Chet-014 - Os Bravos Morrem de Pé), Blue Lonnegan chega a uma cidade à procura de uma antiga amante que é mãe de um filho (que não é seu).
Jerônimo Souza, TEXBR - Outro ingrediente básico nas aventuras do trio é a violência: eles queimavam os vilões sem dó - houve alguma reação negativa quanto a isso?
Wilde Portella - Chet era violento, até mais que Blue. Mas, analiso do seguinte ângulo: Ele se tornou violento após o assassinato e estupro de sua mulher. Assim nasceu um homem que deu tudo de si para vingar a morte de Virginia. Daí em diante, não pensou duas vezes em eliminar os "culpados" de crimes que ele achava hediondos, mas também tinha uma tendência de ficar ao lado do mais fraco e de ajudar um amigo até o fim, no caso do General Custer. Não houve reação negativa por parte dos leitores e dos críticos. Durante toda a trajetória da revista conseguimos (eu e a editora) mantermos o segundo lugar no gráfico de vendas (ficávamos abaixo da vendagem de Tex). E, falando na Vecchi, também escrevi para revistas de terror, tendo o grande Shimamoto como desenhista na história A Botija, e Watson nos roteiros O Caixão Lilás (adaptação de um conto escrito por mim), Balas de Prata Para Um Lobisomem, entre outras.
Jerônimo Souza, TEXBR -
Algumas revistas tem um roteiro muito mais cabeça do
tipo Ken Parker do que o entretenimento de
Tex: ao que se deve essas mudanças?
Wilde Portella - Roteiro do tipo Ken Parker agrada a uma turma mais intelectualizada, eu próprio adorava o estilo de
G. Berardi e
Ivo Milazzo.
Mas, como explicar que Chet vendia mais? Era o povão fã do faroeste tipo cinema e livro de bolso de bang-bang. E Tex? É idolatrado até hoje. Quanto à mudança, é algo natural, pois todos vamos evoluindo e queremos ler algo bem mais elaborado. Isso não quer dizer que Tex e Chet não sejam personagens bem elaborados (sem querer me comparar ao mestre Bonelli).
Jerônimo Souza, TEXBR - Um esquema interessante era a inserção de personagens históricos
(como Billy the Kid) nas aventuras, mas sabemos que isso exige uma grande pesquisa - quais eram as suas fontes?
Wilde Portella - Sempre gostei de colocar em algumas histórias personagens que fizeram parte da vida real. Menos Billy The Kid, que fiz um clone chamado Billy Boy no roteiro
Chet-009 - A História de Billy Boy (o"meu" Billy tinha a mesma idade do verdadeiro Billy The Kid). Também coloquei o General Custer, Doc Holliday, os irmãos Earp (na revista
Chet-021 - O Massacre de OK Corral). Eu gostava de utilizar títulos de filmes nas minhas histórias a exemplo de
Chet-014 - Os Bravos Morrem de Pé. Ah! Chet também saiu em história curta na revista da Vecchi Histórias do Faroeste. Para isso, comprei muitos livros falando sobre o assunto, mapa dos EUA, o livro Enterrem Meu Coração na Curva do
Rio (*).
(*) Depois de ter respondido a entrevista, Wilde viu uma resenha de Chet-005
no TEXBR e acrescentou: "Cabeça de quem está ficando velho é uma droga. Na entrevista respondi que não havia escrito revista abordando Billy The
Kid. Jerônimo souza provou que está sabendo mais que eu. Não é que li uma crônica justamente sobre Chet e Billy the Kid? Pois é, respondi que havia escrito a História de Billy Boy (um clone de Billy the Kid). Acredito que foi a ânsia de responder as perguntas do amigo Jerônimo. Portanto, fica o dito pelo não
dito".
Jerônimo Souza, TEXBR - Finalizando, para conhecimento dos navegantes do Portal
TEXBR, seria bom que você descrevesse os seus projetos atuais, assim como os do Watson e mencionasse os outros artistas de Chet.
Wilde Portella - Bem, como projeto atual (além de estar escrevendo contos eróticos para a editora de Franco de Rosa), tem o relançamento da edição especial de Chet, reunindo todas as histórias de que saíram no Ken Parker. Além disso, estou elaborando um livro de bolso com Chet para ver onde vai dar, e procuro um desenhista para tentar reativar o personagem também em quadrinhos, com novas aventuras e mais atuais. Porém, vai depender da aceitação do mercado, pois com a nossa economia do jeito que está...
Sei não. Essa fase me lembra muito a época em que a Vecchi pediu concordata, pois a economia estava um caos. Tem mais, vou mandar o primeiro capítulo do Chet (bolso) para a turma do Portal
TEXBR (*). Quantos aos desenhistas, foram muitos (e bons): Watson (que deixou o personagem no terceiro número, pois cansou de desenhar a história), Antonino Homobono (que é o mesmo Balieiro), Ofeliano, M. Paciência, Mano e Itamar (os dois últimos como arte-finalistas de Watson).
Mas não quero ser injusto, revisem os nomes dos desenhistas no Portal TEXBR, no link Chet,
não gostaria de ter omitido algum deles nesta entrevista.
(*) O Portal TEXBR já recebeu de Wilde Portela o capítulo 1 desse
projeto e ele logo estará on-line. Fique de olho para não perder
esse fantástico aperitivo de mais um roteiro para Chet, agora em
livro de bolso.
Jerônimo Souza, TEXBR -
Mensagem final!
Wilde Portella - Agradeço a atenção e a chance de divulgar Chet mais uma vez e também o meu nome. Um grande abraço: Wilde Portella.
Em
tempo:
Agradecimentos
a Jerônimo Fagundes de Souza, de
Porto Alegre, RS, Brasil, que enviou imagens e informações para
montarmos esta seção no Portal TEXBR.
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