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Entrevista exclusiva
CLAUDIO VILLA
Entrevista
conduzida por Afrânio Braga e José Carlos
Francisco, com a colaboração de Filipe Ferreira.
Revisão de Júlio Schneider.
Em
fevereiro Tex completou 35 anos de vida
editorial no Brasil e o Portal TEXBR convidou Claudio Villa,
o atual capista de TEX, digno sucessor de Aurelio
Galleppini,
para responder a algumas perguntas ao público texiano do Brasil,
de Portugal e mesmo de outros países que nos acessam e ficamos
muito honrados por o artista ter concordado de pronto com a
entrevista exclusiva, dando a
oportunidade de o conhecermos melhor como pessoa e como é o seu
trabalho, sobretudo em Tex.
Fizemos algumas perguntas e ele, mostrando ser rápido no
gatilho, tal qual o Tex, respondeu a todas com o maior carinho e
disponibilidade, como é seu apanágio.

Claudio Villa, um autêntico
mestre do desenho é
reverenciado pelos amantes das histórias aos quadrinhos como um
dos melhores desenhistas de todos os tempos, sobretudo no que se
refere a HQ realística, uma arte bem mais difícil, mas que lhe
permite representar a realidade, tal qual como ele sempre quis.
O "seu" Oeste é perfeito, sem um único detalhe fora do lugar,
realizado com um estilo que consegue ser ao mesmo "sujo" e
refinado, clássico e moderno, para não falar daqueles elementos
que são problemáticos para todos os desenhistas (como armas e
cavalos), e que Claudio Villa desenha como se fossem os
desenhos mais naturais do mundo.
E não é para menos, pois ele é dono de um traço
inacreditavelmente detalhado, cada página sua é um convite a uma
observação atenta por parte do leitor.
Devido ao seu talento, em 1994 foi chamado para substituir
Galleppini na árdua missão de realizar as capas de Tex, trabalho
esse que Villa aceita com grande humildade e ao mesmo tempo
grande entusiasmo e que continua a fazer ainda hoje. Entretanto,
entre uma capa e outra, encontra tempo para desenhar as suas
histórias texianas, para gáudio dos fãs de Tex.
Veja abaixo a íntegra da
entrevista:
Portal TEXBR -
Para começar, fale um pouco de você. Onde e quando
nasceu? É diplomado em qual curso? O que faz profissionalmente?
Claudio
Villa:
Nasci em Lomazzo,
próximo a Como, em 31 de outubro de 1959. Diplomado no Liceu
Artístico e desenho histórias em quadrinhos.
Portal TEXBR -
Quando você se deu conta de que sabia desenhar? E
quando soube que o seu futuro era ser um desenhista profissional?
Claudio
Villa: Eu
sempre quis desenhar, sempre desenhei. Eu tinha três anos e
desenhava nas embalagens dos brinquedos. A idéia de ser desenhista
estava clara na minha cabeça. Um sonho que, graças a Deus, se tornou
realidade. Por reconhecimento a Ele, procuro fazer esse trabalho da
melhor maneira possível.
Portal TEXBR -
Como entrou para o staff da Sergio Bonelli Editore? E
qual foi o seu primeiro trabalho?
Claudio
Villa: Foi
em 1980. Naquela época eu trabalhava (foi minha estréia) para as
edições LUG, da França, que aceitaram um principiante como eu para
uma minissérie intitulada "Enguerrand e Nadine". Franco Bignotti, um
desenhista ao qual devo grande parte da minha bagagem profissional,
me indicou a Bonelli. Justamente naquela época Alfredo Castelli
estava selecionando a equipe para Martin
Mystère. Depois de um teste
com um roteiro de Castelli, fui "engajado" naquela que considero a
minha verdadeira primeira história profissional, cheia de erros e
ingenuidade: "A Caveira do Destino" (MM italiano n°
11/12; no
Brasil, MM 11/13, Editora Globo).
Portal TEXBR -
Como você analisa a evolução da sua carreira?
Claudio
Villa: Já
lá se vão 26 anos: uma vida. Não sou mais "aquele" rapaz, ainda não
sou aquilo que serei amanhã. Procuro até hoje aquilo que ainda não
descobri sob a folha branca de uma nova página por fazer. Ainda
procuro surpreender-me com novos pontos de referência. Tecnicamente,
eu entendi que saber desenhar bem não é tão importante quanto saber
comunicar. Um desenho tecnicamente perfeito pode ser frio e
distante. Eu busco evoluir no sentido de uma limpeza dos traços
(para o desenho ser compreendido) e um imediatismo de enquadramento
e dinamismo do quadrinho. Mas quase nunca consigo fazer aquilo que
tenho em mente. Sou o primeiro crítico de mim mesmo e isso me
permite não "adormecer" jamais num caminho ainda por descobrir.
Espero permanecer "criança" o quanto basta para me entusiasmar a
cada nova descoberta.
Portal TEXBR -
Qual foi sua sensação quando recebeu o convite para suceder a
Aurelio Galleppini nas capas de Tex? E o que sentiu quando saiu o
Tex italiano nº 401, o primeiro com uma capa sua? (no Brasil, foi
a capa de TX 311, Globo)
Claudio
Villa: Foi
dramático. Tex é um monumento nacional, e não é só isso. Os leitores
se afeiçoaram ao traço que o fez popular em quarenta anos de
história. Partir dali era um belo risco. Eu me perguntava se os
leitores, diante das minhas capas, reconheceriam o mesmo Tex que
carregavam no coração. Eu me coloquei a serviço do Mito. A primeira
capa foi muito sofrida: eu sentia que poderia não suportar a
comparação com Galep. Mas mesmo aquelas capas que produzo hoje não
são mais "fáceis", eu procuro não repetir situações parecidas, a
cada capa eu sofro mais. Hoje, depois de cento e cinqüenta capas,
vejo que os leitores não se esqueceram dele.
Portal TEXBR -
Fazer as capas e histórias do Ranger é o trabalho que você mais
privilegia?
Claudio
Villa:
Estar sempre nas bancas, ainda que com apenas um desenho, é o que
conta. Mas fazer as capas toma muito tempo e isso não ajuda a
história que se está desenhando.
Portal TEXBR -
Quais são suas fontes de inspiração para fazer as capas texianas?
Claudio
Villa:
Antes de tudo o trabalho do desenhista da história em questão.
Depois a viagem ao lado de Tex no mundo da aventura: estar "perto"
dele faz sentir o ponto certo para contar aquilo que fascina e
surpreende num herói como ele. Deixá-lo crível e realístico é uma
contribuição do material fotográfico do meu arquivo.
Portal TEXBR -
As cenas das capas devem estar obrigatoriamente no contexto da
história?
Claudio
Villa: Nem
sempre. Se sim, é melhor, mas Galep também fez capas "genéricas"
esplêndidas.
Portal TEXBR -
Você já utilizou rostos de pessoas reais, como familiares, amigos ou
colegas, nas capas e histórias de Tex?
Claudio
Villa: Nas
capas, só uma vez; não era da família, era um amigo. Nas histórias,
duas vezes, incluída uma homenagem a Ticci. Mas procuro não
exagerar, a diferença (entre pessoas reais e personagens) é muito
gritante.
Portal TEXBR -
O "seu" Tex se parece fisicamente com alguém que você conhece ou
conheceu?
Claudio
Villa: Eu
estou sempre à procura do "retrato" ideal de Tex. Mas não consigo
encontrar um modelo físico "certo". Tex deve inspirar força e calma,
determinação e caráter, sabedoria e segurança, ironia e experiência.
Não é fácil encontrar por aí alguém que se pareça com ele: o desenho
deve contar ao leitor todas as suas qualidades, e a realidade é "pobre" demais de personagens que as tenham todas juntas. Cada dia
se descobre um detalhe que pode ser desenhado "melhor" e que o "descreve" com mais profundidade.
Portal TEXBR -
O que diria a Tex se ele saltasse do papel e ganhasse vida?
Claudio
Villa: "Eu
preferia te imaginar..."
Portal TEXBR -
Quais são as características imutáveis de Tex, ou seja, a sua
essência, algo que não pode ser mudado?
Claudio
Villa: O
sentido de amizade, que faz do quarteto, visto pelos bandidos, "os
mais sarnentos encrenqueiros que jamais apareceram na face da
terra".
Portal TEXBR -
Uma dupla escolha da capa mais bonita: a de Galep e a sua.
Claudio
Villa: De
Galep, "Chinatown" (Tex it.
110; no Brasil é a capa de TXC 157);
a minha, espero que seja a próxima. Se bem que tenho um fraco pela
capa de "A Máscara do Terror" (Tex it.
494; no Brasil é a capa de
TX 409).
Portal TEXBR -
O Tex da capa de "Cvilla - Sogni, segni e disegni" foi
inspirado no Super-Homem de "Super-Homem Eternamente". Alex
Ross é o seu desenhista favorito?
Claudio
Villa: Alex
Ross me salvou num momento de vazio criativo. Eu não tinha mais
pontos de referência, aí vi o seu trabalho e a "máquina de desenhar"
se recolocou em movimento. Eu o considero um grande, o que me
inspira nele é o "espírito" do seu trabalho. Ele está a serviço do
Mito, do Belo, do Ideal. O Batman também está naquela capa (as
luvas), é outro "amor" juvenil jamais esquecido.
Portal TEXBR -
Falando nisso, qual é o seu desenhista preferido do staff texiano? E
qual a sua história favorita do Ranger mais amado do Oeste?
Claudio
Villa:
Depois de Galep, Ticci e Civitelli. A história que ainda releio como
se fosse a primeira vez é "Sulle piste del nord" (Tex it.
121/124; no Brasil, "Flechas Pretas Assassinas", TX
50/52, Vecchi, e
TXC 170/173, Mythos).
Portal TEXBR -
Tex Willer é o personagem de que você mais gosta?
Claudio
Villa: Ele
é a coluna-mestra, sem ele só há o vazio.
Portal TEXBR -
Atualmente você está desenhando uma história de Tex. Quantas páginas
estão feitas? E qual é a previsão de lançamento dessa aventura?
Claudio
Villa:
Estou lá pela página 100; como são 220 no total, estou na metade.
Sairá quando estiver terminada (risos).
Portal TEXBR -
Sobre essa nova história, o que você diria aos fãs mais ansiosos?
Claudio
Villa: Ela
foi escrita por Boselli e é cheia de ação. Estou gostando bastante.
Chega?
Portal TEXBR -
Comente aspectos positivos e negativos do seu trabalho com Tex.
Claudio
Villa: O
bom é desenhar o oeste. O ruim é fazê-lo tendo às costas a
comparação com os grandes desenhistas. O bom é desenhar Tex, o ruim
é o tempo que se leva para desenhar o chapéu, o cinturão, os
revólveres, as balas, as esporas. Isso toma muito tempo: errar na
proporção em algum desses detalhes pode fazer Tex parecer menos
crível.
Portal TEXBR -
O que Tex deu a você fora dos ganhos profissionais?
Claudio
Villa: Tex
faz você se tornar popular; se você diz "eu desenho Tex", muitos te
reconhecem. Mas se você não faz bem, é tudo inútil.
Portal TEXBR -
Você recebe desenhos texianos dos seus admiradores?
Claudio
Villa: Sim.
Não muitos, mas têm chegado.
Portal TEXBR -
Muitos colecionadores não têm gostado dos bonecos da Hachette (coleção
iniciada na Itália em 2005). Você desenhou os modelos para algumas
estatuetas de "Il Mondo di Tex"?
Claudio
Villa: As
duas primeiras: Tex e Carson. Para as outras foram usados desenhos "oficiais".
Portal TEXBR -
Como você vê o futuro de Tex e das histórias em quadrinhos?
Claudio
Villa:
Enquanto existirem vocês para ler, nós estaremos aqui escrevendo e
desenhando.
Portal TEXBR -
O editor Sergio Bonelli disse que
"Blueberry é o irmão francês de
Tex". Qual é a sua opinião sobre a obra-prima de Charlier e
Giraud?
Claudio
Villa: Uma
obra-prima, muito bem contada. Mais "filme" e menos "telefilme".
Portal TEXBR -
O que você pode nos dizer sobre o trabalho que está fazendo para a
Marvel? Como foi o convite? Quais os personagens? Quantas páginas?
De quem é o argumento?
Claudio
Villa: Foi
um convite muito simples: eles me contataram e me pediram para
desenhar uma história. Mas responder não foi fácil: meu trabalho com
Tex é importante e exige muito; também considerei o medo de não me
adaptar e o pouco tempo à disposição. Pesei tudo isso ao lado da
vontade de desenhar super-heróis (outra paixão minha, além do
faroeste). Chegamos a um acordo sobre prazos de entrega e o projeto
teve início. A história foi escrita por Tito Faraci, tem 46 páginas
e prevê o retorno de um inimigo histórico do Demolidor (depois de
Mefisto, fiquei especialista em "retornos"); como convidado
especial, Capitão América. Mas não é um trabalho simples, porque
tenho Tex com um colt apontado para a minha cabeça.
Portal TEXBR
- Existe algum personagem que você gostaria de desenhar? Por
quê?
Claudio
Villa:
Super-Homem e Batman. Eu os lia quando era pequeno. Os trajes deles
sempre me fascinaram.
Portal TEXBR -
O futebol, assim com as histórias em quadrinhos, é uma grande
paixão. Você gosta desse esporte? É torcedor de algum time italiano?
Claudio
Villa: Não
sou aficionado por futebol. Sofro de indigestão: temos partidas
quase todas as noites. Eu gosto de automobilismo.
Portal TEXBR -
Brasil e Portugal são dois belos países. Você pensa em visitá-los
algum dia?
Claudio
Villa: Eu
gostaria, mas acho realmente difícil conseguir visitá-los.
Portal TEXBR -
Claudio, em nome do Portal TEXBR, muito obrigado pela entrevista!
Claudio
Villa:
Obrigado a vocês pelo carinho!
Até a próxima!
Claudio Villa
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