O COZINHEIRO
Giovanni Luigi (ou Gianluigi ou Giovanni
ou ainda Gino) Bonelli nasceu em Milão, no dia 22 de
dezembro de 1908. Começou sua carreira literária
fazendo poesias para a revista Corrieri dei Picolli,
passando a escrever novelas de aventuras para revistas
populares italianas e tornando-se depois roteirista da
famosa revista Audace, que já reunia os grandes do
quadrinho italiano. Em 1940, acabou dono do título dessa
revista.
Após a guerra, junto com o editor
Giovanni de Leo, começou a publicar a revista semanal Il
Cowboy, na qual colaborava também como roteirista
escrevendo histórias de faroeste, é claro.
Mas foi em setembro de 1948 que saiu,
quase sem pretensões, como um trabalho de segunda linha,
o personagem Tex, para entrar na moda das pequenas
revistas que mais pareciam um talão de cheques, por
causa do seu formato.
Apesar de criar e desenvolver outros heróis
do Oeste americano, Bonelli passou a dedicar seu tempo
cada vez mais a Tex, devido ao sucesso que este alcançou
desde o início. Atualmente, se lança de corpo e alma à
sua grande criação: uma obra apaixonada que vem dando
frutos, fazendo surgir outros heróis do Oeste, também
publicados pela sua editora, como Zagor, escrito por Guido Nolitta, que nada mais
é do que o pseudônimo de Sergio Bonelli, filho de
Giovanni Luigi. A "receita" passando de uma
geração para outra, com diferentes temperos.

O PRATO PRINCIPAL
Apesar do amor e dedicação de Giovanni
Bonelli, Tex não seria possível sem o gênio de um
outro "mestre-cuca", Aurelio Gallepini
(Galep), que, sozinho, deu vida durante anos a
fio ao herói, com seu traço magnífico, e que ainda
hoje desenha todas as capas e faz histórias especiais.
Apesar de Tex ter passado pelas mãos de muitos
desenhistas, a marca registrada do traço de Galep não
pode faltar à "receita", para a identificação
imediata do leitor, através de suas capas geniais.
Aurelio Gallepini nasceu em 28 de agosto
de 1917, em Casal di Pari e passou a maior parte de sua
juventude na Sardanha, onde largou os estudos no segundo
ano de um colégio industrial para se dedicar ao desenho
e à pintura. Aos 18 anos, seu traço já começa a
aparecer, primeiro em desenhos animados, depois nas
revistas infantis.
Ao se mudar para Florença, começa a
colaborar em revistas populares, mas após a guerra,
Galep se dedica mais à pintura e as suas aulas de
desenho. Entretanto, em 1947, está desenhando quadrinhos
e colabora na Audace. Logo, Tex vem cair em suas mãos
para dar forma ao projeto de uma nova revista. Como se
tratava de uma revista secundária, Galep executava os
desenhos de Tex durante a noite, após passar o dia se
dedicando a personagens mais importantes. Entretanto, com
o aumento cada vez maior das páginas de Tex, Galep se vê
forçado a abandonar os outros personagens e a se dedicar
mais a Tex, cercando-o de maiores cuidados, percebendo
sua importância.
Assim, durante anos, Galep desenhou
sozinho as aventuras de Tex, mas com o aumento do número
de páginas, chegando às atuais, ele teve que recorrer a
outros desenhistas para completar seu trabalho, mas sua
marca ficou, e hoje é colocado ao lados dos grandes
desenhistas clássicos dos quadrinhos mundiais, como Alex
Raymond e Hal Foster.
OESTE, O PONTO CARDEAL DA AVENTURA
São bem diferentes as características do
mito do Oeste na América e na Europa. Como os Estados
Unidos são um país sem uma história antiga, toda a
mitologia do Oeste foi fabricada para dar a esse povo uma
tradição que ele invejava no europeu e, assim, foram
criados heróis modernos que lembrassem os personagens míticos
do Velho Mundo. Dessa maneira, os caubóis são
apresentados como uma espécie de cavaleiros medievais
com códigos de honra, mas são de criação recente e
artificial. O próprio mundo dos pioneiros do Oeste
americano é envolto num clima de fábula completamente
irreal, copiado de tradições européias por um povo
carente de tradição.
Na Europa, ao contrário, o mito do Oeste
é fruto de uma influência cultural que os americanos
impingiram ao resto do mundo, com seus valores, sua música,
etc. O europeu - mais especificadamente o italiano - não
teve essa necessidade de mistificar o velho Oeste, uma
vez que suas tradições culturais são suficientes.
É por isso que, na Itália, o velho Oeste
passou a representar uma espécie de sonho, um mundo
imaginário aventuresco bem diferente do modelo imposto
pelos americanos durante os anos que se seguiram à II
Guerra Mundial. O Oeste italiano nada mais é do que a
aventura pela aventura, uma epopéia que basta a si mesma,
um mundo não-mitificado que não tem necessidade de se
impor como uma tradição.
O MODELO TEX
O nosso Tex, o representante máximo dessa
corrente, nada tem a ver com os caubóis padronizados do
Oeste: não segue o modelo imposto pelo cinema ou pela
televisão, mesmo porque não chegou a ser influenciado
por esses meios. As histórias do personagem, como são
criadas na Itália, não pretendem transmitir os padrões
de comportamento do americano, nem alimentar o mito
fabricado do Oeste.
Tex, ao contrário do caubói cinematográfico,
é um ex-bandido renegado, é rude, não hesita em
recorrer à violência para arrancar uma confissão, tem
sangue quente latino, e não é nada burocrata.
Criado e desenvolvido pelas mãos sensíveis
de Bonelli, Tex Willer foi mudando através dos anos,
numa espécie de ajustamento às novas gerações e aos
gostos da época. E como depende única e exclusivamente
da imaginação do seu autor e do compromisso com a
aventura, suas histórias seguem sempre uma estrutura bem
montada, com bastante ação, cativando o leitor, que
chega ao fim delas saciado, recompensado, mas - como numa
guloseima - com vontade de querer mais.
Como é produto da fantasia, as histórias
de Tex podem se dar ao luxo de incluir vários
ingredientes impossíveis de surgirem numa história
tradicional baseada no mito do Oeste, como o fantástico.
O mago Mefisto, o melhor exemplo, é um feiticeiro dotado
de poderes extraordinários, como a telepatia, a premonição
e o hipnotismo. Mas o nosso herói enfrenta esse inimigo
com sua disposição habitual e, se não o derrota
completamente, pelo menos Mefisto é vencido pelo cansaço
do leitor, ficando na "geladeira" para uma
posterior aparição.
Mas nada disso Tex é capaz de conseguir
sem, às vezes, recorrer à ajuda de seus companheiros de
aventuras: Jack Tigre, Kit Carson e Kit Willer - este último
seu filho. Sim, filho mesmo, pois Tex já foi casado com
uma índia, Lilyth. Mas isso não deve preocupar as fãs,
pois hoje em dia, Tex é viúvo. Infelizmente, sua Lilyth
foi morta. Desde então, algumas mulheres - todas belas -
têm surgido no seu caminho, mas ele continua levando sua
vida de herói disponível.
Da mesma maneira como surgem mulheres no
caminho de Tex, os inimigos crescem cada vez mais. Além
do citado Mefisto, podemos citar Coffin - que foi seu
primeiro adversário -, Satânia, uma bela mulher chefe
de uma quadrilha, Ted Bartell, o homem de quatro dedos,
Herbert Marshall, o chefe do serviço secreto dos rangers,
e até mesmo seu irmão Sam Willer.
Mas a procura da aventura faz Tex buscar
perigos mais distantes do seu habitat, seguindo numa
verdadeira epopéia em direção ao norte, chegando até
o Canadá. A própria viagem é uma grande aventura,
narrada em vários números da coleção. E é nessa fase
que entra em cena outro desenhista que é considerado um
gênio da nova safra de artistas italianos: Giovanni Ticci.
Nascido a 20 de abril de 1940, Ticci começou
a trabalhar num estúdio de quadrinhos aos 16 anos. Sua
admiração pelos desenhistas clássicos americanos, como
Milton Caniff e Alex Raymond, levou-o a desenvolver um
estilo próprio e inconfundível mas dentro de padrões
amadurecidos, no extremo cuidado com as ambientações.
É isto que os leitores terão oportunidade de ver nesta
nova coleção, que pretende publicar, no Brasil, toda a
série Tex da mesma maneira que foi publicada
originalmente, uma vez que as histórias criadas por
Bonelli têm sido apresentadas com alguns saltos e de
maneira irregular desde a década de 50, quando Tex
surgiu na Revista Júnior, da Editora Rio
Gráfica, com o nome de Texas Kid.
Após essa revista parar de circular, o
personagem ficou uma década em silêncio, retornando em
1971, pela Editora Vecchi, sofrendo uma paralisação
alguns anos depois. Voltou novamente pela Rio Gráfica,
em 1983. Seu sucesso não parou mais e agora conta com três
edições simultâneas. Aliás, o personagem não tem do
que se queixar em matéria de sucesso, pois, além da Itália
e do Brasil, é publicado, entre outras línguas, em
francês, norueguês, iuguslavo, finlandês e holandês.
Afinal, quem é que não gosta de uma
aventura ou uma bela macarronada?
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