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Tex Willer, mais de 50 anos de aventuras Livraria Italiana
Editora Mythos
Capa de TXH-038, retocada em tons de azul.

ALMANAQUE TEX n.20 - Artigo
Captain Jack - O verdadeiro Tex Willer


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Captain Jack - O Verdadeiro Tex Willer
por Rino Di Stefano
tradução de Julio Schneider

Os índios comanches o chamavam de "o diabo branco" e tinham um terror sagrado dele. Os mexicanos, que quando ouviam seu nome faziam o sinal da cruz, o definiam como "o diabo texano". Para todos era o mais temido e respeitado Texas Ranger que jamais existiu.

Tex by Claudio VillaNão, não estamos falando de Tex Willer, o mais famoso herói dos quadrinhos da Itália. O impávido pistoleiro que acompanhou a adolescência de inteiras gerações, e que recentemente deu uma refrescada na sua popularidade graças aos microfones da Radio Due (N.T.: em 2002, Tex foi personagem de episódios radiofônicos, na Itália), não é apenas um herói de papel. O personagem nascido da fantasia criativa de Gianluigi Bonelli parece se encaixar perfeitamente na vida daquele que passou à história como o mais famoso Texas Ranger de todos os tempos, um homem que virou uma lenda viva tão forte que, em 1848, quando tinha apenas 31 anos, o Estado do Texas deu seu nome a um novo condado.

John Coffee "Jack" Hays (1817-1883)John Coffee Hays (esse era seu nome) ainda hoje é conhecido em todos os Estados Unidos como Captain Jack. Que Bonelli tenha se inspirado nele para traçar a figura de Tex Willer é muito provável, vistas as numerosas semelhanças entre o herói dos gibis e o verdadeiro, de carne e osso. Como Tex, Hays também era um homem de modos simples (detestava os galões militares e os formalismos), ainda que, atrás de sua modéstia, escondia a coragem de um leão e uma incrível habilidade de combatente. Como Tex, Hays também tinha como parceiro e amigo um chefe índio que esteve ao seu lado em mil batalhas: o de Tex era o navajo Jack Tigre, o de Hays o lipan Flacco. Como Tex, Hays era considerado um chefe dos índios (se bem que eram lipans e não navajos) e seus inimigos jurados eram os sanguinários índios comanches e os bandidos mexicanos que infestavam o Texas. Como Tex, Hays também recebeu do governo federal americano a nomeação de Agente Indígena, no caso, a de Gila River Country. Como Tex, Hays era conhecido por suas formidáveis qualidades de batedor. Como Tex, por fim, era contemporâneo de outro famoso personagem do Oeste, Kit Carson, que conheceu e que (como nos quadrinhos) era um pouco mais velho do que ele - tinha nove anos a mais.

Mas vamos escavar um pouco mais na história deste ranger. John Coffee Hays nasce em 28 de janeiro de 1817 em Little Cedar Lick, no Wilson County do Tennesse, primogênito dos seis filhos de Harmon Hays e de Elizabeth Cage. Seu nome é escolhido por seu pai, como lembrança de seu comandante, o general John Coffee, nas tropas de quem havia lutado na guerra de independência contra os ingleses, com o posto de tenente.  


O Pai de Tex: Gianluigi Bonelli

Depois de ter freqüentado a Davidson Academy de Nashville, o jovem Hays sente o chamado do Texas. É 1837. Um ano antes, exatamente na noite de 6 de março de 1836, cerca de 180 americanos comandados por William Barret Travis haviam sido trucidados na missão do Álamo pelos soldados do general mexicano Antonio López de Santa Anna. Entre as heróicas vítimas estava um outro célebre filho do Tennesse, o coronel David Crockett, ex-deputado dos Estados Unidos.

A Estrela dos Texas RangersJack (chamado desde pequeno pelo apelido que lhe havia dado o avô paterno Robert) passa a divisa do Texas em Nacogdoches e se alista na companhia dos rangers sob o comando de Erastus (Deaf) Smith, prestando serviço de San Antonio ao Rio Grande. O batismo de fogo acontece justamente no Rio Grande, onde os rangers se envolvem em batalha com a cavalaria mexicana e a derrotam. Jack se destaca a tal ponto que é promovido a sargento em campo. É a primeira de uma longa série de promoções. De fato, ação após ação, Jack conquista o respeito de seus superiores e logo chega (em 1839) ao posto de capitão.  

Captain Jack, como agora é chamado por amigos e inimigos, tem a missão de proteger os colonos americanos dos ataques dos comanches e dos bandidos mexicanos que aterrorizam a fronteira. Sua ação é capilar e os resultados militarmente surpreendentes.  

Um exemplo é a captura, bastante movimentada, de um conhecido bandido mexicano, Juan Sanchez. Durante uma patrulha de inspeção próxima ao Rio Grande, Hays é informado pelo proprietário de um rancho que na margem oposta do rio havia um grupo de bandidos mexicanos. Como o rio só podia ser atravessado num único ponto, ao pôr-do-sol Hays se posiciona com seus rangers entre as árvores, para armar uma emboscada aos bandidos. Tudo parece correr bem quando, no exato instante em que os bandidos estão atravessando o Rio Grande, um ranger dá um tiro inesperado e, ato contínuo, os mexicanos levam as mãos às armas. No tiroteio que se sucede, um texano é ferido e três mexicanos mortos. Temerosos de acabar como seus companheiros, outros quatro mexicanos tentam retornar por onde haviam vindo, sendo imediatamente seguidos por Hays e por um outro ranger. Vendo que os perseguidores são apenas dois, os quatro param e tentam atingi-los, mas Hays acerta em cheio um dos adversários, matando-o no ato. Os outros três abandonam o leito do rio e esporeiam os cavalos em direção à pradaria, onde poderiam correr melhor. Mas já é tarde: Hays e seus rangers os circundam e os bandidos, vista a inutilidade da defesa, se rendem. Um deles é justamente o famoso Juan Sanchez, que acaba enforcado junto aos comparsas.  


Texas Ranger em patrulha, numa foto de 1910

Outro grande problema para os Texas Ranger era constituído por algumas tribos indígenas que se encarniçavam contra os colonos americanos com uma crueldade excessiva mesmo para aqueles tempos. Como aconteceu um dia, próximo a San Felipe, quando um garoto chegou a galope no quartel general de Hays e, arfante depois de apear do cavalo com um salto, anunciou o enésimo massacre: "os comanches exterminaram uma família!".

Em poucos minutos, Captain Jack e seus homens foram ao local. Entre as ruínas fumegantes da casa, os rangers encontraram os corpos de duas crianças mortas a golpes de tomahawk, ambas sem o escalpo. O corpo do pai jazia poucos metros adiante, também ele sem o escalpo, morto com dois tiros de arma de fogo no peito. A mãe, que durante o ataque havia sido atingida na cabeça e havia perdido os sentidos, tinha se salvado milagrosamente e agora vagava desesperada, chorando e berrando, abraçando um corpo depois o outro. "A minha menina, a minha menina..." - disse a Hays, soluçando - "...eles a levaram. Salvem minha filha, por favor...".  


Tex by Galep

Com efeito, depois de ter matado os homens da família, os comanches haviam raptado uma garota de 17 anos. Hays não perdeu tempo e, junto aos seus rangers, imediatamente partiu na pista dos índios. Talvez porque não imaginavam que eram seguidos, os comanches não haviam adotado muitas precauções e, por isso, foram alcançados depois de algumas horas, num acampamento nas proximidades do Llano River. Os rangers não eram em número suficiente para estar seguros de que poderiam derrotar os criminosos índios, fazendo com que Hays se dirigisse a eles com muita franqueza: "Rapazes, provavelmente alguns de nós vamos perder um pouco de sangue hoje, mas fiquem todos calmos. Mostrem sua coragem de sempre e não tenho nenhuma dúvida de qual será o resultado". Então, com o revólver na mão direita, deu o sinal de ataque: "Vamos!". À ordem de Hays, os rangers, dispostos em leque e armados com os Colt Paterson a tambor, cinco tiros cada, atacaram os índios, atirando como fúrias. Os comanches realmente não esperavam aquele ataque. Quando os rangers invadiram o acampamento, imediatamente os guerreiros tentaram pegar suas armas, mas o efeito surpresa havia funcionado e foi o pânico. Perdidos e sem guia, os índios montaram em seus cavalos e fugiram na floresta. Só então Hays fez o balanço da situação: no ataque, dois de seus homens haviam morrido, cinco feridos. Os índios haviam deixado cinco guerreiros pelo chão. Mas ninguém havia visto a garota. Foi encontrada pouco depois, também ela morta a golpes de tomahawk: os comanches, vendo que não podiam levá-la consigo, haviam preferido matá-la. O corpo estava tão machucado que alguns dos rangers, vendo-o, se puseram a chorar. Hays determinou que a enterrassem perto de um precipício às margens do desfiladeiro do Llano River.

Captain Jack foi nomeado coronel em 1846, quando lhe foi confiado um regimento dos rangers, por ocasião da guerra entre os Estados Unidos e o México. Para entender que tipo de relacionamento havia entre "los diablos texanos" ("os diabos texanos", como eram chamados os rangers) e os mexicanos, basta citar um episódio que aconteceu em México City, quando os rangers entraram na cidade em coluna, a cavalo, Hays à frente deles. Assim que os habitantes se deram conta de que aqueles que estavam desfilando eram os odiados rangers (não vestiam uniformes e estavam armados até os dentes), um homem pegou uma pedra e a atirou contra eles. A resposta foi imediata: o ranger que recebeu a pedra sacou seu colt e matou o homem no ato. Então, sem se perturbar, guardou a arma e continuou tranqüilamente seu caminho. Em seguida a esse episódio, o general Winfleld Scott chamou Hays, pedindo-lhe explicações sobre o ocorrido. "Não há nada a dizer - respondeu Hays - simplesmente os Texas Ranger não se deixam insultar ou atingir por ninguém".

Monumento, em tamanho natural, feito pelo escultor Jason Scull, dedicado a John  Cofee HaysO que mais impressionava em Hays, a quem não o conhecia, era seu aspecto físico. Um seu contemporâneo, Samuel C. Reid, lembra-se de quando foi apresentado a ele, em março de 1846: "Nós tentávamos distinguir, no grupo, o célebre comandante dos texanos, e ficamos muito surpresos quando nos foi apresentado um jovem de aspecto gentil, cerca de um metro e setenta e cinco, que era justamente o nosso coronel. Estava vestido de modo bastante comum, usava um paletó simples, o costumeiro chapéu texano de aba larga e copa redonda, a camisa com o colete aberto e um lenço negro amarrado de forma negligente no pescoço. Seus cabelos eram castanho-escuros; os olhos, grandes e brilhantes, cor de avelã, com sobrancelhas grossas e arqueadas, sustentavam sem esforço qualquer conversa e transmitiam uma linguagem própria que não tinha como ser mal interpretada. A fronte era grande e desenvolvida, o nariz de tipo romano com narinas finamente curvadas, a boca larga com os cantos descendentes, o lábio superior era pequeno, enquanto que o inferior ligeiramente proeminente indicava uma grande firmeza e determinação. No todo, era de compleição clara, mas a longa exposição ao sol da fronteira havia deixado sua pele escura e áspera. Sua expressão era bastante pensativa e preocupada, devido ao seu contínuo contato com perigos e dificuldades; suas responsabilidades de comandante lhe haviam conferido uma carranca perene, mesmo em situações normais de repouso. Ademais, não usava bigodes, e isso lhe dava uma aparência até juvenil... seus modos eram corteses e era muito disponível, também pela sua extrema modéstia. Sua reputação entre os mexicanos era tão grande que ele era conhecido como Captain Jack em toda parte".

No fim da guerra, quando já estava para ser promovido a tenente-general, Hays decidiu que era chegada a hora de se retirar. Tinha 32 anos e já era uma lenda viva, ainda mais que a vida ativa média de um ranger, naquele tempo, era de apenas dois anos, antes de ser morto em serviço. E foi justamente naquele período que o Texas deu seu nome a um novo condado. Talvez ele, no ápice do sucesso, tenha entendido que a sorte não podia durar para sempre no campo de batalha, então se casou com Susan Calvert, uma garota de boa família que havia conhecido uns dois anos antes, e foi para a Califórnia, onde, por quatro anos, foi o xerife do condado de San Francisco. Abandonou a estrela porque, em 1853, o presidente Franklin Pierce o nomeou superintendente geral da Califórnia. Em seu novo papel, esteve também entre os fundadores da cidade de Oakland e, em 1876, entrou na política como delegado na Convenção Nacional do Partido Democrático. Clique para ampliar! Nesse meio tempo, a esposa lhe havia presenteado três filhos homens e duas mulheres, e a família vivia num esplêndido rancho em Piedmont, na Califórnia, onde, em 25 de abril de 1883, com a idade de 66 anos, morreu em conseqüência dos problemas articulares que havia acumulado na sua aventurosa juventude texana. Para os americanos, porém, Captain Jack ainda está vivo e há quem jure que, nas noites de lua cheia, alguém ainda vê seu fantasma, montado num cavalo negro, galopando na infinita pradaria do Texas à caça de bandidos e comanches. Exatamente como Tex. (N.T.: O Monumento feito por Scull foi colocado no centro da Hays County Courthouse Square, da cidade de San Marcos, no Texas, em 16 de novembro de 2001).

Em tempo: Rino Di Stefano, que gentilmente nos cedeu a autorização para publicação deste seu texto, é jornalista em Gênova, Itália, além de, "por deformação profissional" (como ele mesmo informa), um incansável pesquisador. Suas pesquisas abrangem desde a história política da Itália até aquela do Velho Oeste americano, tendo publicado livros e artigos vários; dentre os que têm estreita ligação com o nosso mundo do Faroeste, citamos os artigos "Os Heróis do Álamo, Texas 1836" e "O.K. Corral, quando a política era feita à base de revólveres", que futuramente poderão ser publicados em nossas páginas. (Julio Schneider)
- Artigo em italiano:
www.rinodistefano.com/it/articoli/rangers.htm
- N.T: Nota do tradutor


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