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Captain Jack - O Verdadeiro Tex Willer
por
Rino Di Stefano
tradução de Julio
Schneider
Os
índios comanches o chamavam de "o diabo branco" e tinham um
terror sagrado dele. Os mexicanos, que quando ouviam seu nome faziam o
sinal da cruz, o definiam como "o diabo texano". Para todos
era o mais temido e respeitado Texas Ranger que jamais existiu.
Não,
não estamos falando de Tex
Willer, o mais famoso herói dos quadrinhos da Itália. O impávido
pistoleiro que acompanhou a adolescência de inteiras gerações, e
que recentemente deu uma refrescada na sua popularidade graças aos
microfones da Radio Due (N.T.: em 2002, Tex
foi personagem de episódios radiofônicos, na Itália), não é
apenas um herói de papel. O personagem nascido da fantasia criativa
de Gianluigi Bonelli parece se encaixar perfeitamente na vida daquele
que passou à história como o mais famoso Texas Ranger de todos os
tempos, um homem que virou uma lenda viva tão forte que, em 1848,
quando tinha apenas 31 anos, o Estado do Texas deu seu nome a um novo
condado.
John
Coffee Hays (esse
era seu nome) ainda hoje é conhecido em todos os Estados Unidos como Captain
Jack. Que Bonelli tenha se inspirado nele para traçar a figura de
Tex Willer é muito provável, vistas as numerosas semelhanças entre
o herói dos gibis e o verdadeiro, de carne e osso. Como Tex, Hays
também era um homem de modos simples (detestava os galões militares
e os formalismos), ainda que, atrás de sua modéstia, escondia a
coragem de um leão e uma incrível habilidade de combatente. Como Tex,
Hays também tinha como parceiro e amigo um chefe índio que esteve ao
seu lado em mil batalhas: o de Tex era o navajo Jack
Tigre, o de Hays o lipan Flacco.
Como Tex, Hays era considerado um chefe dos índios (se bem que eram
lipans e não navajos) e seus inimigos jurados eram os sanguinários
índios comanches e os bandidos mexicanos que infestavam o Texas. Como
Tex, Hays também recebeu do governo federal americano a nomeação de
Agente Indígena, no caso, a de Gila River Country. Como Tex, Hays era
conhecido por suas formidáveis qualidades de batedor. Como Tex, por
fim, era contemporâneo de outro famoso personagem do Oeste, Kit
Carson, que conheceu e que (como nos quadrinhos) era um pouco mais
velho do que ele - tinha nove anos a mais.
Mas
vamos escavar um pouco mais na história deste ranger. John Coffee
Hays nasce em 28 de janeiro de 1817 em Little Cedar Lick, no Wilson
County do Tennesse, primogênito dos seis filhos de Harmon Hays e de
Elizabeth Cage. Seu nome é escolhido por seu pai, como lembrança de
seu comandante, o general John Coffee, nas tropas de quem havia lutado
na guerra de independência contra os ingleses, com o posto de
tenente.

O Pai de Tex: Gianluigi Bonelli
Depois
de ter freqüentado a Davidson Academy de Nashville, o jovem Hays
sente o chamado do Texas. É 1837. Um ano antes, exatamente na noite
de 6 de março de 1836, cerca de 180 americanos comandados por William
Barret Travis haviam sido trucidados na missão do Álamo pelos
soldados do general mexicano Antonio López de Santa Anna. Entre as
heróicas vítimas estava um outro célebre filho do Tennesse, o
coronel David Crockett, ex-deputado dos Estados Unidos.
Jack
(chamado desde pequeno pelo apelido que lhe havia dado o avô paterno
Robert) passa a divisa do Texas em Nacogdoches e se alista na
companhia dos rangers sob o comando de Erastus (Deaf) Smith, prestando
serviço de San Antonio ao Rio Grande. O batismo de fogo acontece
justamente no Rio Grande, onde os rangers se envolvem em batalha com a
cavalaria mexicana e a derrotam. Jack se destaca a tal ponto que é
promovido a sargento em campo. É a primeira de uma longa série de
promoções. De fato, ação após ação, Jack conquista o respeito
de seus superiores e logo chega (em 1839) ao posto de capitão.
Captain
Jack, como agora é
chamado por amigos e inimigos, tem a missão de proteger os colonos
americanos dos ataques dos comanches e dos bandidos mexicanos que
aterrorizam a fronteira. Sua ação é capilar e os resultados
militarmente surpreendentes.
Um
exemplo é a captura, bastante movimentada, de um conhecido bandido
mexicano, Juan Sanchez. Durante uma patrulha de inspeção próxima ao
Rio Grande, Hays é informado pelo proprietário de um rancho que na
margem oposta do rio havia um grupo de bandidos mexicanos. Como o rio
só podia ser atravessado num único ponto, ao pôr-do-sol Hays se
posiciona com seus rangers entre as árvores, para armar uma emboscada
aos bandidos. Tudo parece correr bem quando, no exato instante em que
os bandidos estão atravessando o Rio Grande, um ranger dá um tiro
inesperado e, ato contínuo, os mexicanos levam as mãos às armas. No
tiroteio que se sucede, um texano é ferido e três mexicanos mortos.
Temerosos de acabar como seus companheiros, outros quatro mexicanos
tentam retornar por onde haviam vindo, sendo imediatamente seguidos
por Hays e por um outro ranger. Vendo que os perseguidores são apenas
dois, os quatro param e tentam atingi-los, mas Hays acerta em cheio um
dos adversários, matando-o no ato. Os outros três abandonam o leito
do rio e esporeiam os cavalos em direção à pradaria, onde poderiam
correr melhor. Mas já é tarde: Hays e seus rangers os circundam e os
bandidos, vista a inutilidade da defesa, se rendem. Um deles é
justamente o famoso Juan Sanchez, que acaba enforcado junto aos
comparsas.

Texas Ranger em
patrulha, numa foto de 1910
Outro
grande problema para os Texas Ranger era constituído por algumas
tribos indígenas que se encarniçavam contra os colonos americanos
com uma crueldade excessiva mesmo para aqueles tempos. Como aconteceu
um dia, próximo a San Felipe, quando um garoto chegou a galope no
quartel general de Hays e, arfante depois de apear do cavalo com um
salto, anunciou o enésimo massacre: "os
comanches exterminaram uma família!".
Em
poucos minutos, Captain Jack e seus homens foram ao local. Entre as ruínas
fumegantes da casa, os rangers encontraram os corpos de duas crianças
mortas a golpes de tomahawk, ambas sem o escalpo. O corpo do pai jazia
poucos metros adiante, também ele sem o escalpo, morto com dois tiros
de arma de fogo no peito. A mãe, que durante o ataque havia sido
atingida na cabeça e havia perdido os sentidos, tinha se salvado
milagrosamente e agora vagava desesperada, chorando e berrando, abraçando
um corpo depois o outro. "A
minha menina, a minha menina..." - disse a Hays, soluçando -
"...eles a levaram. Salvem
minha filha, por favor...".

Tex by Galep
Com
efeito, depois de ter matado os homens da família, os comanches
haviam raptado uma garota de 17 anos. Hays não perdeu tempo e, junto
aos seus rangers, imediatamente partiu na pista dos índios. Talvez
porque não imaginavam que eram seguidos, os comanches não haviam
adotado muitas precauções e, por isso, foram alcançados depois de
algumas horas, num acampamento nas proximidades do Llano River. Os
rangers não eram em número suficiente para estar seguros de que
poderiam derrotar os criminosos índios, fazendo com que Hays se
dirigisse a eles com muita franqueza: "Rapazes, provavelmente alguns de nós vamos perder um pouco de
sangue hoje, mas fiquem todos calmos. Mostrem sua coragem de sempre e
não tenho nenhuma dúvida de qual será o resultado". Então,
com o revólver na mão direita, deu o sinal de ataque: "Vamos!".
À ordem de Hays, os rangers, dispostos em leque e armados com os Colt
Paterson a tambor, cinco tiros cada, atacaram os índios, atirando
como fúrias. Os comanches realmente não esperavam aquele ataque.
Quando os rangers invadiram o acampamento, imediatamente os guerreiros
tentaram pegar suas armas, mas o efeito surpresa havia funcionado e
foi o pânico. Perdidos e sem guia, os índios montaram em seus
cavalos e fugiram na floresta. Só então Hays fez o balanço da situação:
no ataque, dois de seus homens haviam morrido, cinco feridos. Os índios
haviam deixado cinco guerreiros pelo chão. Mas ninguém havia visto a
garota. Foi encontrada pouco depois, também ela morta a golpes de
tomahawk: os comanches, vendo que não podiam levá-la consigo, haviam
preferido matá-la. O corpo estava tão machucado que alguns dos
rangers, vendo-o, se puseram a chorar. Hays determinou que a
enterrassem perto de um precipício às margens do desfiladeiro do
Llano River.
Captain
Jack foi nomeado coronel em 1846, quando lhe foi confiado um regimento
dos rangers, por ocasião da guerra entre os Estados Unidos e o México.
Para entender que tipo de relacionamento havia entre "los diablos
texanos" ("os diabos texanos", como eram chamados os
rangers) e os mexicanos, basta citar um episódio que aconteceu em México
City, quando os rangers entraram na cidade em coluna, a cavalo, Hays
à frente deles. Assim que os habitantes se deram conta de que aqueles
que estavam desfilando eram os odiados rangers (não vestiam uniformes
e estavam armados até os dentes), um homem pegou uma pedra e a atirou
contra eles. A resposta foi imediata: o ranger que recebeu a pedra
sacou seu colt e matou o homem no ato. Então, sem se perturbar,
guardou a arma e continuou tranqüilamente seu caminho. Em seguida a
esse episódio, o general Winfleld Scott chamou Hays, pedindo-lhe
explicações sobre o ocorrido. "Não
há nada a dizer - respondeu Hays - simplesmente
os Texas Ranger não se deixam insultar ou atingir por ninguém".
O
que mais impressionava em Hays, a quem não o conhecia, era seu
aspecto físico. Um seu contemporâneo, Samuel C. Reid, lembra-se de
quando foi apresentado a ele, em março de 1846: "Nós
tentávamos distinguir, no grupo, o célebre comandante dos texanos, e
ficamos muito surpresos quando nos foi apresentado um jovem de aspecto
gentil, cerca de um metro e setenta e cinco, que era justamente o
nosso coronel. Estava vestido de modo bastante comum, usava um paletó
simples, o costumeiro chapéu texano de aba larga e copa redonda, a
camisa com o colete aberto e um lenço negro amarrado de forma
negligente no pescoço. Seus cabelos eram castanho-escuros; os olhos,
grandes e brilhantes, cor de avelã, com sobrancelhas grossas e
arqueadas, sustentavam sem esforço qualquer conversa e transmitiam
uma linguagem própria que não tinha como ser mal interpretada. A
fronte era grande e desenvolvida, o nariz de tipo romano com narinas
finamente curvadas, a boca larga com os cantos descendentes, o lábio
superior era pequeno, enquanto que o inferior ligeiramente proeminente
indicava uma grande firmeza e determinação. No todo, era de compleição
clara, mas a longa exposição ao sol da fronteira havia deixado sua
pele escura e áspera. Sua expressão era bastante pensativa e
preocupada, devido ao seu contínuo contato com perigos e
dificuldades; suas responsabilidades de comandante lhe haviam
conferido uma carranca perene, mesmo em situações normais de
repouso. Ademais, não usava bigodes, e isso lhe dava uma aparência
até juvenil... seus modos eram corteses e era muito disponível, também
pela sua extrema modéstia. Sua reputação entre os mexicanos era tão
grande que ele era conhecido como Captain Jack em toda parte".
No
fim da guerra, quando já estava para ser promovido a tenente-general,
Hays decidiu que era chegada a hora de se retirar. Tinha 32 anos e já
era uma lenda viva, ainda mais que a vida ativa média de um ranger,
naquele tempo, era de apenas dois anos, antes de ser morto em serviço.
E foi justamente naquele período que o Texas deu seu nome a um novo
condado. Talvez ele, no ápice do sucesso, tenha entendido que a sorte
não podia durar para sempre no campo de batalha, então se casou com
Susan Calvert, uma garota de boa família que havia conhecido uns dois
anos antes, e foi para a Califórnia, onde, por quatro anos, foi o
xerife do condado de San Francisco. Abandonou a estrela porque, em
1853, o presidente Franklin Pierce o nomeou superintendente geral da
Califórnia. Em seu novo papel, esteve também entre os fundadores da
cidade de Oakland e, em 1876, entrou na política como delegado na
Convenção Nacional do Partido Democrático. Nesse meio tempo, a
esposa lhe havia presenteado três filhos homens e duas mulheres, e a
família vivia num esplêndido rancho em Piedmont, na Califórnia,
onde, em 25 de abril de 1883, com a idade de 66 anos, morreu em conseqüência
dos problemas articulares que havia acumulado na sua aventurosa
juventude texana. Para os americanos, porém, Captain Jack ainda está
vivo e há quem jure que, nas noites de lua cheia, alguém ainda vê
seu fantasma, montado num cavalo negro, galopando na infinita pradaria
do Texas à caça de bandidos e comanches. Exatamente como Tex.
(N.T.: O Monumento feito por Scull foi colocado no centro da Hays
County Courthouse Square, da cidade de San Marcos, no Texas, em 16 de
novembro de 2001).
Em
tempo: Rino
Di Stefano, que gentilmente nos cedeu a autorização para publicação
deste seu texto, é jornalista em Gênova, Itália, além de, "por
deformação profissional" (como ele mesmo informa), um incansável
pesquisador. Suas pesquisas abrangem desde a história política da Itália
até aquela do Velho Oeste americano, tendo publicado livros e artigos vários;
dentre os que têm estreita ligação com o nosso mundo do Faroeste,
citamos os artigos "Os Heróis do Álamo, Texas 1836" e
"O.K. Corral, quando a política era feita à base de revólveres",
que futuramente poderão ser publicados em nossas páginas. (Julio
Schneider)
- Artigo em italiano:
www.rinodistefano.com/it/articoli/rangers.htm
- N.T: Nota do tradutor
topo da página
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