A história é suficientemente cativante para o leitor, é mesmo uma das melhores que Nizzi nos apresenta desde há alguns tempos a esta parte, mas sofre de uma certa falta de equilíbrio. Sendo mais uma versão do clássico Dr. Jekyll e Mr Hide, Nizzi consegue, ainda assim, juntar-lhe o contraponto da eterna questão de se saber onde termina a ciência e começa a magia ou ainda laivos de uma certa moralidade cristã que nunca viu com bons olhos o subverter as leis naturais. Se Nizzi sempre se revelou maniqueísta, em Sombras na Noite o autor acaba por nunca defraudar o leitor neste particular aspecto, uma vez que o ideal patente é o do eterno conflito entre o bem e o mal, aqui apresentado com um carácter altruísta.
No entanto, após apresentar toda a base do seu argumento, Nizzi acaba por revelar ao leitor toda a informação que lhe faltava, aquela que prendia a sua atenção e conferia um certo mistério do que estaria por detrás de toda a trama. Nizzi não soube guardar um pouco mais as expectativas, preferindo antes antecipar quase todas as explicações. Não se trata de apontar fraquezas no argumento, na sua
idéia geral, mas sim um certo desequilíbrio no desenvolvimento do mesmo. As personagens, tal como as
ações, vão surgindo de modo misterioso, para rapidamente tudo se desencadear sem percalços ao longo de uma aventura que acaba por se arrastar por um excessivo número de páginas.
Tex surge em Sombras na Noite como um conhecedor da alma do oeste, um homem a quem o faro do seu nariz raramente engana, como ele próprio tem oportunidade de dizer. Tex pensa antes de agir, Tex joga psicologicamente com este seu conhecimento e só passa à
ação física quando as condições assim o impõem. Para os puristas, este é um Tex medroso e estanque, um herói envelhecido. Nizzi tem sido duramente criticado por ultimamente
adotar esta postura para o ranger, conferindo a Tex uma maior espessura psicológica, esta sua faceta dialogante em detrimento da
"conversa de mãos" que tanto sucesso fez com G.L. Bonelli.
Em Sombras na Noite Tex só passa à
ação física após decorridas mais de 180 páginas. Mas se o Tex bonelliano era sobretudo um duro, porque sustentado nesta acção física, o Tex nizziano, não descurando esta, é porventura mais maduro. Repare-se em toda a
sutileza patente na página 187 onde Nizzi consegue congregar estas duas facetas do ranger. Após ter esmurrado Sammy no estábulo, na boa maneira bonelliana, Tex saca da sua arma e, através de um fabuloso jogo de mãos, o ranger passa a uma atitude de violência psicológica, esta mais do agrado de Nizzi. Se o Tex de Bonelli não perdia tempo, este “novo” Tex adopta uma outra atitude, tendo tempo para sacar a arma, tirar as balas, fechar o tambor e girar o canhão, sequência toda ela superiormente representada através de belas imagens de De Angelis.
Se Tex raras vezes se assume verdadeiramente ao longo de todas as páginas de Sombras na Noite, a verdade é que muito da culpa está nos seus adversários. O mentor de toda a tramóia não é verdadeiramente um adversário como Tex tem encontrado ao longo das suas aventuras. Por trás dos reais
objetivos do Dr. Stevens está a procura de algo de bom na espécie humana. Os verdadeiros adversários são então aqueles que aproveitaram as suas pesquisas para subverter o ideal de um médico, mas nunca se assumindo como reais ameaças à investigação do ranger. A crítica que podemos certamente fazer a Nizzi é que o autor acaba por escolher adversários sem carisma, que nunca obrigam Tex a aplicar-se.
Uma nota final para os outros pards, simples figurantes nesta aventura. Carson surge-nos muito sério, sem aqueles deliciosos diálogos com Tex que tanto prazer nos dão. Kit não tem influência e Jack Tigre nunca se assume. Talvez aqui exista mais matéria de crítica a Nizzi do que propriamente saber que caminho Tex poderá vir a assumir no futuro.
Desenho
Na entrevista que acompanha Sombras na Noite, De Angelis afirma ser um autor meticuloso e trabalhador, foi esta postura que pretendeu
adotar com Tex, mas por fim deixou-se levar pelo ambiente e pela personagem. Foi esta a impressão que, indubitavelmente, o autor italiano nos deixou.
Isso mesmo se nota na própria expressão
adotada para Tex. Folheando Sombras na Noite, podemos ser levados a pensar que De Angelis vagueou entre Villa e Ticci na composição do ranger, mas com o desenrolar das páginas, a verdade é que o Tex de De Angelis é assumidamente e marcadamente ticciano.
Não só na figura do ranger se nota uma influência de Ticci (como quase todos os desenhadores o têm feito), mas de igual modo na composição de cada página, procurando De Angelis oferecer muitas perspectivas de conjunto e conferir assim uma expressão global a cada cena.
O autor mostra-se muito à vontade em ambientes
noturnos, onde o seu jogo de sombras e o seu domínio do claro e do escuro são bem evidentes, a que não é alheio o facto de De Angelis estar habituado a desenhar séries de ficção científica como Nathan Never. Também as cenas de interiores são muito ricas, cheias de detalhes.
Eventualmente, De Angelis assume-se em Sombras na Noite como um dos melhores desenhadores destas edições gigantes dos últimos anos. Não só o seu desenho é rico, como a composição do ranger nos parece conseguida e fiel aos parâmetros a que o leitor está habituado.
topo da página
Tex Especiais
Tex Gigantes
TEX WILLER
TEXBR